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sexta-feira, dezembro 17, 2010

Under The Sea Of Fog


"Vejo que as tempestades vêm aí
pelas árvores que, à medida que os dias se tomam mornos,
batem nas minhas janelas assustadas
e ouço as distâncias dizerem coisas
que não sei suportar sem um amigo,
que não posso amar sem uma irmã.

E a tempestade rodopia, e transforma tudo,
atravessa a floresta e o tempo
e tudo parece sem idade:
a paisagem, como um verso do saltério,
é pujança, ardor, eternidade.

Que pequeno é aquilo contra que lutamos,
como é imenso, o que contra nós luta;
se nos deixássemos, como fazem as coisas,
assaltar assim pela grande tempestade, —
chegaríamos longe e seríamos anónimos.

Triunfamos sobre o que é Pequeno
e o próprio êxito torna-nos pequenos.
Nem o Eterno nem o Extraordinário
serão derrotados por nós.
Este é o anjo que aparecia
aos lutadores do Antigo Testamento:
quando os nervos dos seus adversários
na luta ficavam tensos e como metal,
sentia-os ele debaixo dos seus dedos
como cordas tocando profundas melodias.

Aquele que venceu este anjo
que tantas vezes renunciou à luta.
esse caminha erecto, justificado,
e sai grande daquela dura mão
que, como se o esculpisse, se estreitou à sua volta.
Os triunfos já não o tentam.
O seu crescimento é: ser o profundamente vencido
por algo cada vez maior."


Poema: "O Homem que Contempla" de Maria Rilke
Pintura: Wanderer Above the Sea of Fog de Caspar David Friedrich

sábado, junho 26, 2010

segunda-feira, agosto 10, 2009

Agosto


"Tu me levaste, eu fui... Na treva, ousados
Amamos, vagamente surpreendidos
Pelo ardor com que estávamos unidos
Nós que andávamos sempre separados.

Espantei-me, confesso-te, dos brados
Com que enchi teus patéticos ouvidos
E achei rude o calor dos teus gemidos
Eu que sempre os julgara desolados.

Só assim arrancara a linha inútil
Da tua eterna túnica inconsútil...
E para a glória do teu ser mais franco

Quisera que te vissem como eu via
Depois, à luz da lâmpada macia
O púbis negro sobre o corpo branco."


Poema: "Soneto de Agosto" de Vinicius de Moraes
Imagem: "Les Amants" de René Magritte

sexta-feira, fevereiro 27, 2009

Para Ti

«Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.

Eu tenho a minha loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto a espuma, e sangue, e cântigos nos lábios...
Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.»


Poema e imagem: José Régio

terça-feira, janeiro 20, 2009

And That Is The Longing... And This Is The Book

" I can't make the hills
The system is shot
I'm living on pills
For which I thank God.

I followed the course
From chaos to art
Desire the horse
Depression the cart

I sailed like a swan
I sank like a rock
But time is long gone
Past my laughing stock

My page was too white
My ink was too thin
The day wouldn't write
What the night pencilled in

My animal howls
My angel's upset
But I'm not allowed
A trace of regret

For someone will use
What I couldn't be
My heart will be hers
Impersonally

She'll step on the path
She'll see what I mean
My will cut in half
And freedom between

For less than a second
Our lives will collide
The endless suspended
The door open wide

Then she will be born
To someone like you
What no one has done
She'll continue to do

I know she is coming
I know she will look
And that is the longing
And this is the book."



Texto: "The Book of Longing" de Leonard Cohen
Imagem: Leonard Cohen

quarta-feira, julho 02, 2008

"Mal passou o espectro do Dilúvio,
Na Casa Grande, com vidraças ainda escorrendo, crianças de luto olharam as imagens maravilhosas,
A Senhora *** instalou um piano nos Alpes. A missa e as primeiras comunhões celebraram-se nos cem mil altares da Catedral.
Cobertas negras e órgãos - raios e trovão, - venham para o alto e rolai; - Águas e tristezas, cresçam e alteai os Dilúvios."



Texto: "Iluminações e Poemas" de Arthur Rimbaud
Imagem: "The Morning after the Deluge" de William Turner (1843)

quinta-feira, junho 05, 2008

Edgar Allan Poe por Fernando Pessoa

Até há relativamente pouco tempo, desconhecia esta tradução de Fernando Pessoa (1888 - 1935) do poema "The Raven" (O Corvo) de Edgar Allan Poe (1809 - 1849). Incrível como até, numa mera tradução, se consegue vislumbrar a mestria de Fernando Pessoa.



"Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais
«Uma visita», eu me disse, «está batendo a meus umbrais.
É só isso e nada mais.»


Ah, que bem disso me lembro! Era no frio Dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P'ra esquecer (em vão) a amada, hoje entre hostes celestiais -
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas sem nome aqui jamais!


Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundindo força, eu ia repetindo,
«É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isso e nada mais».


E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
«Senhor», eu disse, «ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi...» E abri largos, franquendo-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.


A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais —
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
Isto só e nada mais.


Para dentro estão volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
«Por certo», disse eu, «aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais.»
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
«É o vento, e nada mais.»


Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais.
Foi, pousou, e nada mais.


E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
«Tens o aspecto tosquiado», disse eu, «mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais.»
Disse-me o corvo, «Nunca mais».


Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos seus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
Com o nome «Nunca mais».


Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, «Amigo, sonhos — mortais
Todos — todos lá se foram. Amanhã também te vais».
Disse o corvo, «Nunca mais».


A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
«Por certo», disse eu, «são estas vozes usuais.
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais
Era este «Nunca mais».


Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu'ria esta ave agoureira dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
Com aquele «Nunca mais».


Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sombras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sombras desiguais,
Reclinar-se-á nunca mais!


Fez-me então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
«Maldito!», a mim disse, «deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!»
Disse o corvo, «Nunca mais».


«Profeta», disse eu, «profeta — ou demónio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais,
Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!»
Disse o corvo, «Nunca mais».


«Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!», eu disse.
«Parte! Torna à noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste!
Tira-te de meus umbrais!»
Disse o corvo, «Nunca mais».


E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha dor de um demónio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão mais e mais,
E a minh'alma dessa sombra, que no chão há mais e mais,
Libertar-se-á... nunca mais!"


Tradução de "The Raven" de Edgar Allan Poe por Fernando Pessoa
Imagem: Albrecht Dürer da série "The Raven"

terça-feira, maio 20, 2008

"Porém já cinco sóis eram passados
Que dali nos partíramos, cortando
Os mares nunca de outrem navegados,
Pròsperamente os ventos assoprando,
Quando ira noite, estando descuidados
Na cortadora proa vigiando,
Ũa nuvem, que os ares escurece,
Sobre nossas cabeças aparece.

Tão temerosa vinha e carregada,
Que pôs nos corações um grande medo.
Bramindo, o negro mar de lomge brada,
Como se desse em vão nalgum rochedo.
- «Ó Potestade - disse - sublimada,
Que ameaço divino ou que segredo
Este clima e este mar nos apresenta,
Que mor cousa parece que tormenta?»

Não acabavan quando ũa figura
Se nos mostra no ar, robusta e válida,
De disforme e grandíssima estatura,
O rosto carregado, a barba esquálida,
Os olhos encovados, e a postura
Medonha e má, e a cor terrena e pálida,
Cheios de terra e crespos os cabelos,
A boca negra, os dentes amarelos.

Tão grande era de membros, que bem posso
Certificar-me que este era o segundo
De Rodes estranhíssimo Colosso,
Que um dos sete milagres foi do mundo.
C'um tom de voz nos fala horrendo e grosso,
Que pareceu sair do mar profundo.
Arrepiam-se as carnes e o cabelo
A mim e a todos, só de ouvi-lo e vê-lo."

Texto: "Os Lusíadas", Canto V, 37-40 de Luís de Camões
Imagem: "Colossus" de Goya

quinta-feira, abril 03, 2008

" I
Entra pela janela
o anjo camponês;
com a terceira luz na mão;
minucioso, habituado
aos interiores de cereal,
aos utensílios
que dormem na fuligem;
os seus olhos rurais
não compreendem bem os símbolos
desta colheita: hélices,
motores furiosos;
e estende mais o braço; planta
no ar, como uma árvore,
a chama do candeeiro.

II
As outras duas luzes
são lisas, ofuscantes;
lembram a cal, o zinco branco
nas pedreiras;
ou nos umbrais
de cantaria aparelhada; bruscamente;
a arder; há o mesmo
branco na lâmpada do tecto;
o mesmo zinco
nas máquinas que voam
fabricando o incêndio; e assim,
por toda a parte,
a mesma cal mecânica
vibra os seus cutelos.

III
Ao alto; à esquerda;
onde aparece
a linha da garganta,
a curva distendida como
o gráfico dum grito;
o som é impossível; impede-o pelo menos
o animal fumegante;
com o peso das patas, com os longos
músculos negros, sem esquecer
o sal silencioso
no outro coração:
por cima dele, inútil; a mão desta
mulher de joelhos
entre as pernas do touro.

IV
Em baixo, contra o chão
de tijolo queimado,
os fragmentos duma estátua;
ou o construtor da casa
já sem fio de prumo,
barro, sestas pobres? quem
tentou salvar o dia,
o seu resíduo
de gente e poucos bens? opor
à química da guerra,
aos reagentes dissolvendo
a construção, as traves,
este gládio,
esta palavra arcaica?

V
Mesa, madeira posta
próximo dos homens pelo corte
da plaina,
a lixa ríspida,
a cera sobre o betume, os nós,
e dedos tacteando
as últimas rugosidades;
morosamente; com o amor
do carpinteiro ao objecto
que nasceu
para viver na casa;
no sítio destinado há muito;
como se fosse, quase,
uma criança da família.

VI
O pássaro; a sua anatomia
rápida; forma cheia de pressa
que se condensa
apenas o bastante
para ser visível no céu,
sem o ferir;
modelo doutros voos: nuvens;
e vento leve, folhas,agora, atónito, abre as asas
no deserto da mesa;
tenta gritar às falsas aves
que a morte é diferente:
cruzar o céu com a suavidade
dum rumor e sumir-se.

VII
Cavalo, reprodutor
de luz nos prados, quando
respira, os brônquios;
dois frémitos de soro; exalam
essa névoa
que o primeiro sol transforma
numa crina trémula
sobre pastos e éguas; mas aqui
marcou-o o ferro
dos lavradores que o anjo ignora;
e endureceu-o de tal modo
que se entrega;
como as bestas bíblicas;
ao tétano, ao furor.

VIII
Outra mulher: o susto
a entrar no pesadelo;
oprime-a o ar, e cada passo
é apenas peso: seios
donde os mamilos pendem,
gotas duras
de leite e medo; quase pedras;
memória tropeçando
em árvores, parentes,
num descampado vagaroso;
e amor também:
espécie de peso que produz
por dentro da mulheros mesmos passos densos.

IX
Casas desidratadas
no alto forno; e olhando-as,
momentos antes de ruírem,
o anjo desolado
pensa: entre detritos
sem nenhum cerne ou água,
como anunciar
outra vez o milagre das salas;
dos quartos; crescendo cisco
a cisco, filho a filho?
as máquinas estranhas,
os motores com sede, nem sequer
beberam o espírito das minhas casas;
evaporaram-no apenas.

X
O incêndio desce;
do canto superior direito;
sobre os sótãos,
os degraus das escadas
a oscilar,
hélices, vibrações, percutem os alicerces;
e o fogo, veloz agora, fende-os, desmorona
toda a arquitectura,
as paredes áridas desabam
mas o seu desenho
sobrevive no ar; sustém-no
a terceira mulher; a última; com os braços
erguidos, com o suor da estrela
tatuada na testa."

Poema: "Descrição da Guerra em Guernica" de Carlos de Oliveira
Imagem: "Guernica" de Pablo Picasso (1937)

sexta-feira, outubro 26, 2007

"Trocando Olhares" com Florbela Espanca

"Quero-te ao pé de mim na hora de morrer.
Quero, ao partir, levar-te, todo suavidade,
Ó doce olhar de sonho, ó vida dum viver
Amortalhado sempre à luz duma saudade.

Quero-te junto a mim quando o meu rosto branco
Se ungir da palidez sinistra do não ser,

E quero ainda, amor, no meu supremo arranco
Sentir junto ao meu seio teu coração bater.

Que seja a tua mão branda como a neve
Que feche o meu olhar numa carícia leve
Em doce perpassar de pétala de lis...

Que seja a tua boca rubra como o sangue
Que feche a minha boca, a minha boca exangue!...
Ah, venha a morte já que eu morrerei feliz!..."



Poema "Desejo" de Florbela Espanca
Fotograma de "In the Mood for Love" de Wong Kar-Wai

quarta-feira, outubro 03, 2007

On Cremation of Chögyam Thungpa Vidyadhara

"I noticed the grass, I noticed the hills, I noticed the highways,
I noticed the dirt road; I noticed the car rows in the parking lot
I noticed the ticket takers, noticed the cash and the checks and credit cards,
I noticed the buses, noticed mourners, I noticed their children in red dresses,
I noticed the entrance sign, noticed retreat houses, noticed blue and yellow flags
Noticed the devotees, their trucks and buses, guards in khaki uniforms,
I noticed the crowds, noticed misty skies, noticed the all –pervading smiles and empty eyes –
I noticed the pillows, coloured red and yellow, square pillows round and round –
I noticed the Tori gate, passers-through bowing, a parade of men & women in formal dress –
Noticed the procession, noticed the bagpipe, drums, horns, noticed high silk head crowns and saffron robes, noticed the three piece suits,
I noticed the palanquin, an umbrella, the stupa painted with jewels the Colours of the four directions –
Amber for generosity, green for karmic works,

I noticed the white for Buddha, red for the heart –
Thirteen worlds on the stupa hat, noticed the bell handle and umbrella, the empty head of the white cement bell - Noticed the corpse to be set in the head of the bell –
Noticed the monks chanting, horn plaint in our ears, smoke rising from astep the firebrick empty bells –
Noticed the crowds quiet, noticed the Chilean poet, noticed a rainbow,
I noticed the guru was dead,
I noticed his teacher bare breasted watching the corpse burn in the stupa,
Noticed morning students sad cross legged before their books, chanting devotional mantra’s, Gesturing mysterious fingers, bells and brass thunderbolts in their hands,
I noticed flames rising above flags and wires and umbrellas and painted orange poles,
I noticed, I noticed the sky, noticed the sun, a rainbow around the sun, light misty clouds drifting over the sun –
I noticed my own heart beating, breath passing through my nostrils
My feet walking, eyes seeing,

I've noticed smoke above the corpse, I've noticed fired monuments
I noticed the path downhill, I've noticed the crowd moving toward the buses
I noticed food, lettuce salad, I noticed the teacher was absent,
I noticed my friends, I've noticed our car, I've noticed the blue Volvo,

I've noticed a young boy hold my hand
Our key in the motel door, I noticed a dark room, I noticed a dream
And forgot, noticed oranges lemons and caviar at breakfast,
I noticed the highway, sleepiness, homework thoughts, the boy’s nippled chest in the breeze
As the car rolled down hillsides past green woods to the water.

I noticed the sea, I noticed the music - I wanted to dance."

Allen Ginsberg; "On the Cremation of Chogyam Thungpa Vidyadhara" (1987)
Imagem: Patty Smith

quarta-feira, agosto 15, 2007

Adília Lopes: Arte Nova

"Quem fode
Fode.

Fode
Quem pode."

"Estou aqui
sem ti

Tu estás
em Chelas

Não vens
ter comigo

Eu não vou
para Chelas

Isto aqui
é Chelas

Eu não estou bem
em Sacavém."



Adília Lopes; "Sete Rios Entre Campos" (1999)

terça-feira, abril 17, 2007

Supplica A Mi Madre

"È difficile dire con parole di figlio
ciò a cui nel cuore ben poco assomiglio.
Tu sei la sola al mondo che sa, del mio cuore,
ciò che è stato sempre, prima d'ogni altro amore.

Per questo devo dirti ciò ch'è ocorrendo conoscere:
è dentro la tua grazia che nasce la mia angoscia.
Sei insostituibile. Per questo è dannata
alla solitudine la vita che mi hai data.
E non voglio esser solo. Ho un'infinita fame
d'amore, dell'amore di corpi senza anima.

Perché l'anima è in te, ma tu
sei mia madre e il tuo amore è la mia schiavitù:
ho passato l'infanzia schiavo di questo senso
alto, irrimediabile, di un impegno immenso.
Era l'unico modo per sentire la vita,
l'unica tinta, l'unica forma: ora è finita.

Sopravviviamo: ed è la confusione
di una vita rinata fuori dalla ragione.
Ti supplico, ah, ti supplico: no voler morire.
Sono qui, solo, con te, in un futuro aprile..."

Texto: Pier Paolo Pasolini ("Poesia in Forma di Rosa")
Imagem: Gustav Klimt

domingo, abril 01, 2007

Allen Ginsberg: Sex, Drugs and Literature

O poeta maldito Allen Ginsberg (1926-1997), escreveu o poema político "The Ballad of the Skeletons". O compositor Philip Glass atribuiu-lhe a alma musical. Paul McCartney foi um dos poucos músicos residentes na gravação e posterior divulgação desta obra. Este é o vídeo (com a versão "clean") do lendário "The Ballad of the Skeletons", realizado por Gus Van Sant.

sábado, janeiro 27, 2007

Lamma, Lamma Sabacthani

"God, why have you condemned me?
Mavpes Apakvuthes!
Why have you forsaken me?
This is my blood,
This is my body,
These are my veins.

I am blind
God, I cannot see!
Mavpes Apakvuthes!
Why have you forsaken me?
Birds of death
Take my life!

Why,
Why have you forsaken me?

Texto: Diamanda Galás
Imagem: "Cinzas" de Edvard Munch (1894)

sábado, janeiro 20, 2007

In The Old, Old Days

"At that time only the dead smiled
Happy because they could breathe"

Anna Akhmatova (1889-1966); "Prologue to a Requiem"

quarta-feira, setembro 27, 2006

& As Tormentas

"Este foi o nosso último abraço. E quando,
daqui a nada, deixares o chão desta casa
encostarei amorosamente os lábios ao teu copo
para sentir o sabor desse beijo que hoje não
daremos. E então, sim, poderei também eu
partir, sabendo que, afinal, o que tive da vida
foi mais, muito mais, do que mereci."

Poema: Maria do Rosário Pedreira
Imagem: Tom Cruise e Nicole Kidman em "Eyes Wide Shut"

quarta-feira, setembro 13, 2006

The Orders From The Dead

Um post tão negro quanto o meu estado de espírito de momento.
Será que isso condiciona a nossa leitura?
Será que isso condiciona os nossos "posts"?
(Post não recomendável a pessoas sensíveis.)

THE WORLD IS GOING UP IN FLAMES
THE WORLD IS GOING UP IN FLAMES
THE WORLD IS GOING UP IN FLAMES

But this flames are NOT new to OUR dead
OUR dead did cry their final prayer in those flames
Our dead did sing their last lullaby in those flames
Our dead prayed to our infidelite GOD in those flames
Our dead whispered a last goodbye to their mother
IN THOSE FLAMES

THE WORLD IS GOING UP IN FLAMES

OUR dead clawed their children close in
THE WORLD IS GOING UP IN FLAMES
OUR dead watched their daughters
BUTCHED, RAPED AND BEATEN
in the still-burning of THOSE FLAMES
OUR dead watched an ax remove their mother's skull
and crown a wooden spit
in the continuous burning of THOSE FLAMES
OUR DEAD watched while Chrysotomos eyes and tongue were pulled out,
teeth and fingers broken, one by one,
in the laughing and the cheering OF THOSE FLAMES

OUR DEAD watched their sisters drenched with gasoline
and scream with melting skin
"THE WORLD IS GOING UP IN FLAMES!"
OUR DEAD gave birth to Turkish victories
the gurgling and then dying trophy,
on a bayonet which marked the borders of
THE WORLD IS GOING UP IN FLAMES

OUR DEAD WERE DRAGGED IN MARCHES
THROUGH THE DESERT SUN
FOR WEEKS UNTIL THE SUN BURNED OUT THEIR LUNGS
and when the desert sun which was burning them like flames
ripped apart their lips, we heard the final prayer
"LORD, GOD HAVE MERCY LORD UPON OUR SOULS!"
They saw the WORLD IS GOING UP IN FLAMES
buried, not yet dead inside the pits
engraved:
"GIAOURI, INFIDELI:
OUR GOD HAS CHOSEN YOU TO DIE"

And now the unblessed dead have ordered us to say:
THIS is my GRAVE, MY HOLY BED
You cannot take it
YOU can NOT ERASE MY NAME
YOU can NOT ERASE OUR DEAD
YOU can NOT ERASE THE DEAD
Because we have been ordered now
to list their names, their numbers,
to give their date of birth, their earthly city,
their father's name, the sweetness of their mother's eyes

GOODBYE

GOODBYE

GOODBYE
and forevermore
We'll see you when the desert meets the sky
But do not FORGET MY NAME

And so these were the orders from the dead
said without a word but with a final glance:
the

SECOND

granted to the Indifel
since a infidelite Hell
should NOT require a prayer
should NOT require a silent moment
And now the Infidel is told
to forgive and to forget
to understand
Advance into a paradise of Dead Memories
of Living Dead, the Old Folks Home
of Catatonia
of Madness
and Despair.
Do not ask me for the NUMBER of that Grave
It has been stolen.
What IS this love for bones and dirt?
Put this ancient thing behind you, Infidelite
You HAVE no claim to GOD
You HAVE no claim to PEACE
You HAVE no claim to JOY

YOU HAVE NO CLAIM

YOU HAVE NO CLAIM

YOU HAVE NO CLAIM

GIAVOURI!!!!

Remember just how lucky, sperm of Satan,
that you are:
to even BE
alive.

NOW!

HERE!

ACROSS THE SEA!

GIAVOUR!

You HAVE no GOD.

A man without a God
Can NOT be burned ALIVE
He never WAS alive,
not as a MAN, giavour,
but as a DOG."

BUT I HAVE ORDERS FROM THE DEAD that warn me:
"DO NOT FORGET ME:
My blood will fill the air you breathe
FOREVER

MY DEATHBIRD is NOT DEAD

HE CARRIES ALL MY TEETH:

MY SMILE OF UNFORGETFULNESS,

MY LAUGH!

VRYKOLAKA!

I am the man unburied
who CANNOT sleep
IN FORTY PIECES!!!!!
I am the girl,
dismembered
and unblessed,
I am the open mouth
that drags your flesh
and will never rest

until

MY DEATH IS WRITTEN
IN A ROCK
THAT CAN NOT BE BROKEN!"

And these are the orders
from The Dead.

Texto: "The Orders from the Dead" de Diamanda Galás de "Defixiones, Will and Testament;
Imagem: "Auto-de-Fé" de Elio Copetti

quarta-feira, agosto 09, 2006

Heautontimoroumenos

Gosto bastante dos trabalhos do poeta francês Charles Baudelaire (1821-1867). Escritor maldito, viu o seu livro "Les Fleurs du Mal", apreendido acusado por ultrajar a moral pública. Este mês faz 139 anos que Baudelaire faleceu. Aqui fica um dos 100 poemas que o livro contém (que infelizmente só possuo taduzido em inglês por Richard Howard).
"No rage, no rancor:
I shall beat you as butchers fell an ox,
as Moses smote the rock in Horeb - I shall make you weep,
and by the waters of affliction my desert will be slaked.
My desire, that hope has made monstrous, will frolic in your tears
as a ship tosses on the ocean -in my besotted heart
your adorable sobs will echo like an ecstatic drum.
For I - am I not a dissonance in the divine accord,
because of the greedy Irony which infiltrates my soul?
I hear it in my voice - that shrillness, that poison in my blood!
I am the sinister glass in which the Fury sees herself!
I am the knife and the wound it deals,
I am the slap and the cheek,
I an the wheel and the broken limbs,
hangman and victim both!
I am the vampire at my own veins,
one of the great lost horde
doomed for the rest of my time,
and beyond, to laugh - and smile no more."

quarta-feira, julho 26, 2006

If You Forget Me

"I want you to know one thing.
You know how this is:
if I look
at the crystal moon, at the red branch
of the slow autumn at my window,
if I touch near the fire
the impalpable ash
or the wrinkled body of the log,
everything carries me to you,
as if everything that exists,
aromas, light, metals,
were little boats
that sail
toward those isles of yours that wait for me.

Well, now,
if little by little you stop loving me
I shall stop loving you little by little.
If suddenly
you forget me
do not look back for me,
for I shall already have forgotten you."

Poema: "If You Forget Me" (excerto) de Pablo Neruda
Imagem: "Paris, Texas" de Wim Wenders