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domingo, julho 19, 2009

Leitura a 100%

É verdade! - nervoso - muito... eu andava e ando terrivelmente nervoso. Mas porque dirás tu que estou louco? A doença apurou os meus sentidos, não os destruiu, não os entorpeceu. O mais apurado de todos os sentidos foi a audição. Eu ouvi todas as coisas existentes no céu e na terra. Eu ouvi muitas coisas no inferno. Como, então, posso eu estar louco? Escuta! E observa com que sobriedade, com que calma eu te posso contar a história toda.
É impossível dizer como a ideia surgiu no meu cérebro, mas uma vez concebida, assombrou-me dia e noite. Sem nenhuma objecção. Sem nenhuma paixão. Eu adorava o velho. Ele nunca me tinha enganado. Ele nunca me tinha insultado. Eu não cobiçava o ouro dele. Eu penso que era o olho dele! Sim, era isso! Ele tinha o olho de um abutre, um pálido olho azul com uma película por cima. Sempre que o olhar dele caía sobre mim o meu sangue gelava, e gradualmente - muito gradualmente - Eu decidi-me a tirar a vida ao velho e assim livrar-me do olho para sempre.
Agora este é o ponto. Imaginas-me louco. Os loucos nada sabem. Mas tu devias ter-me visto. Devias ter visto como procedi sabiamente, com que cautela, com que providência, com que dissimulação eu me pus ao trabalho! Eu nunca fui mais simpático para o velho do que durante toda a semana antes de o matar. E todas as noites, por volta da meia-noite, eu rodei a maçaneta da sua porta e abri-a - oh, com que suavidade! E depois, quando eu fiz uma abertura suficiente para a minha cabeça, eu introduzi uma lanterna com a luz oculta, completamente fechada, tapada, de tal forma que nenhuma luz saía para fora. Depois eu enfiei a cabeça. Oh, rir-te-ias de ver o quão astuciosamente introduzi a cabeça! Eu movi-a vagarosamente, muito, muito vagarosamente, para que não perturbasse o sono do velho. Levei uma hora a colocar a cabeça na frincha por forma a vê-lo deitado na cama. Hah! Teria um louco esta sagacidade? Depois, quando a cabeça estava já dentro do quarto, eu destapei a lanterna cautelosamente - oh, tão cautelosamente - cautelosamente (pois as roldanas da tampa rangiam). Eu abri só uma nesga pequena, tão estreita que apenas saiu um único raio de luz que caiu sobre o olho do abutre. Isto eu fiz por sete longas noites, todas as noites à meia-noite. Mas em todas elas o olho estava cerrado, e como tal era impossível fazer o trabalho; pois não era o velho que me atormentava, mas sim o seu olho maléfico. Todas as manhãs quando o sol nasceu, eu entrei impertinentemente no quarto e falei corajosamente com ele, chamando-o de forma carinhosa pelo seu nome, e perguntando como havia passado a noite. Assim vês que ele teria que ser um velho muito sagaz, para suspeitar que todas as noites, precisamente à meia-noite, eu o vigiava enquanto ele dormia.
Na oitava noite eu tive mais cautela do que o costume ao abrir a porta. O ponteiro dos minutos de um relógio move-se mais rapidamente do que se moveu a minha mão, Nunca antes daquela noite eu havia sentido a extensão das minhas capacidades, da minha sagacidade. Eu mal podia conter o meu sentido de triunfo. Só de pensar que ali estava eu, a abrir a porta, pouco a pouco, e ele nem sequer sonhava com as minhas secretas intenções ou pensamentos. Eu dei verdadeiramente uma risada, e talvez ele me tenha ouvido, pois mexeu-se subitamente na cama, como que alarmado. Agora deves pensar que me retirei. Mas não. O quarto dele estava tão negro como um poço com a escuridão cerrada, (pois as persianas estavam completamente fechadas, por medo dos ladrões,) e portanto eu sabia que ele não podia ver a abertura da porta, e eu continuei a empurrá-la firmemente, firmemente.
Eu tinha a cabeça lá dentro, e estava quase a abrir a lanterna, quando o meu polegar escorregou na portinhola de latão, e o velho ergueu-se da cama, gritando - "Quem está aí?"
Eu manti-me sossegado e nada disse. Durante uma hora inteira eu não mexi um músculo, e ao longo desse tempo não o ouvi deitar-se de novo. Ele ainda estava sentado na cama a ouvir, tal como eu tinha feito, noite após noite, escutando o bater dos relógios na parede.
No momento ouvi um gemido, e soube que era o gemido do terror de morte. Não era o gemido de dor ou de angústia. Oh, não! Era o som abafado que se solta do fundo da alma quando sobrecarregada de temor. Eu conhecia bem o som. Muitas noites, justamente à meia-noite quando o mundo dormia, saiu de dentro do meu próprio peito, intensificando com o seu eco espantoso os terrores que me desorientavam. Eu conhecia-o bem. Eu sabia o que velho sentia, e tinha pena dele, apesar de o meu coração dar risadas. Eu sabia que ele estava acordado desde o primeiro ligeiro ruído, quando se virou na cama. Os seus medos vinham crescendo desde então. Ele estava a tentar imaginá-los casuais, mas não foi capaz. Ele dizia para si próprio - "Não é mais do que o vento na chaminé, é apenas um rato a atravessar o chão," ou "é apenas uma tábua que rangeu, sozinha." Sim, ele tentava confortar-se com estas suposições, mas percebeu que tudo tinha sido em vão. Tudo em vão, porque a morte, ao aproximar-se dele tinha colocado a sua sombra negra diante dele, e envolvido a vítima. Foi a influência funesta (melancólica) da sombra imperceptível que o fez sentir, ainda que não pudesse ver ou ouvir, a presença da minha cabeça dentro do quarto.
Quando eu já tinha esperado muito tempo, muito pacientemente, sem o ouvir deitar, resolvi abrir um pouco, uma pequena, muito pequena frincha da lanterna. Então abri, não podes imaginar com que subtileza, até que, ao comprido um simples raio de luz, da grossura da teia de aranha, disparou da frincha da lanterna e aterrou sobre o olho de abutre.
Estava aberto, muito, muito aberto, e fiquei furioso assim que o vislumbrei. Vi-o perfeitamente. Todo um azul pálido, com um véu hediondo por cima que arrepiou as extremidades dos meus ossos. Mas não conseguia ver mais nenhuma parte do corpo do velho, pois eu tinha dirigido o raio de luz como que por instinto, precisamente para o ponto maldito.
E não te disse eu, que o que tomas por loucura não é mais do que o apuramento de sentidos? Agora, digo eu, veio aos meus ouvidos um som subtil, insípido, rápido, tal como faz um relógio quando envolvido em algodão. Eu conhecia bem esse som, também. Era a batida do coração do velho. Aumentou-me a fúria, como a batida de um tambor estimula o soldado e o encoraja.
Mas ainda aí eu me retive quieto. Eu mal respirava. Segurava a lanterna sem me mexer. Eu tentei, tão firmemente quanto pude, manter o raio de luz sobre o olho. Entretanto a infernal batida do coração aumentou. Tornou-se cada vez mais supremo! Tornou-se mais alta, digo eu, mais alta a cada instante! Entendes-me bem? Eu disse que estou nervoso: e estou. E agora no silêncio da noite, no silêncio perverso daquela casa velha, um som tão estranho como este excitou-me até ao ponto de me aterrorizar descontroladamente. No entanto, por mais uns minutos consegui reter-me quieto. Mas a batida tornou-se mais alta, mais alta! Eu pensei que o coração fosse rebentar. Agora uma nova preocupação apoderou-se de mim, o som seria ouvido por um vizinho! A hora do velho tinha chegado! Com um grito, eu abri a lanterna e saltei para dentro do quarto. Ele guinchou uma vez, só uma vez. Num instante eu arrastei-o para o chão e larguei a pesada cama em cima dele. Depois sorri alegremente, ao ver a tarefa cumprida. Mas, por muitos minutos, a batida do coração continuou com um som abafado. Isto, no entanto, não me incomodava, não seria ouvido para lá das paredes. Aos poucos cessou. O velho estava morto. Eu removi a cama e examinei o cadáver. Sim, ele estava que nem uma pedra, morto que nem uma pedra. Coloquei a minha mão sobre o coração e deixei-a lá por muitos minutos. Não havia pulsação. Estava morto que nem uma pedra. O olho dele não me perturbaria mais.
Se ainda me julgas louco, não me julgarás mais quando te descrever a sagacidade das precauções que eu tomei para ocultar o corpo. A noite desfalecia, e eu trabalhei apressadamente, mas em silêncio. Primeiro que tudo desmembrei o cadáver. Cortei a cabeça, e os braços e as pernas.
Depois retirei três tábuas do chão do quarto, e larguei tudo entre as fundações. Depois, eu voltei a colocar as tábuas tão inteligentemente, tão astuciosamente, que nenhum olho humano, nem mesmo o do velho, poderia detectar algo de errado. Não havia nada para limpar, nenhuma mancha de nenhum tipo, nem uma pinga de sangue. Eu tinha sido demasiado prudente para isso. Um tubo tinha resolvido tudo, ah! aha!
Quando eu tinha dado por terminado estes afazeres, eram quatro da manhã. Ainda tão escuro como à meia-noite. Aquando da batida da hora no relógio, vieram-me bater à porta da rua. Eu desci para abrir descontraidamente, pois o que tinha eu a temer? Entraram três homens, que se apresentaram, com perfeita suavidade, como inspectores da polícia. Um guincho tinha sido ouvido por um vizinho durante a noite, suspeições de coisas estranhas tinham sido levantadas, queixas tinham sido feitas na esquadra, e eles (inspectores) tinham sido destacados para averiguar as circunstâncias.
Eu sorri, pois o que tinha a temer? Dei-lhes as boas vindas. - O guincho - disse eu - fui eu próprio num sonho. O velho - mencionei - está ausente na província. Conduzi as minhas visitas pela casa toda. Permiti-lhes procurar, procurar bem. Finalmente, levei-os ao quarto dele. Mostrei-lhes os seus pertences, guardados, não haviam sido tocados. No entusiasmo da minha confiança, trouxe cadeiras para o quarto, e queria-os aqui para descansar das suas fadigas, enquanto eu próprio na audacidade do meu perfeito triunfo, coloquei a minha cadeira sobre o preciso lugar por trás do qual tinha largado o cadáver da vítima.
Os inspectores estavam satisfeitos. O meu comportamento tinha-os convencido. Era singularmente descontraído. Eles sentaram-se, e enquanto eu respondia alegremente, eles conversaram sobre banalidades. Mas demoraram-se. Eu senti-me a ficar pálido e desejei que partissem. A minha cabeça doía, e imaginei um zumbido nos meus ouvidos: mas eles ainda estavam sentados e ainda conversavam. O zumbido tornou-se mais claro, mas falei mais abertamente para me livrar do ruído, mas continuou e tornava-se mais definido. Até que, o fim de um tempo, eu percebi que o som não estava nos meus ouvidos.
Sem dúvida fiquei muito pálido, mas falei fluentemente, e em voz bem alta. No entanto o som aumentou - e o que podia eu fazer? Era um som abafado, insípido, rápido, bastante parecido com o som que um relógio faz quando envolvido em algodão. Eu recuperei o fôlego e no entanto os inspectores não o tinham ouvido. Eu falei mais rapidamente, mais veementemente, mas o som aumentava firmemente. Eu levantei-me e argumentei sobre futilidades, num tom agudo e gesticulando violentamente, mas o som aumentava firmemente. Porque não se iam embora? Eu desloquei-me no chão para trás e para a frente com passos fortes, como que enfurecido com as observações dos homens, mas o som aumentava firmemente. Oh Deus! Que podia eu fazer? Eu espumava. Enfureci-me, eu juro! Eu girei a cadeira na qual estava sentado, e bati-a contra as tábuas, mas o som erguia-se continuamente. Tornou-se cada vez mais alto, mais alto, mais alto! E os homens ainda conversavam agradavelmente, e sorriam. Seria possível que não estivessem a ouvir? Deus Todo-Poderoso! Não, não! Eles ouviam! Eles suspeitavam! Eles sabiam! Eles estavam a fazer troça do meu terrível medo. Assim eu pensei, e assim eu penso. Mas qualquer coisa era melhor do que esta agonia! Qualquer coisa era melhor do que esta zombaria! Eu já não podia suportar aqueles sorrisos hipócritas! Eu senti que ou gritava ou morria! E agora de novo! Escuta! Mais alto! Mais alto! Mais alto! Mais alto!
"Malvados!" eu guinchei, "Parem de disfarçar! Eu admito o que fiz! Levantem as tábuas! Aqui, aqui! É o bater do coração hediondo dele!"

Texto: "O Coração Delator" de Edgar Allan Poe
Imagens: Harry Clarke

quinta-feira, junho 05, 2008

Edgar Allan Poe por Fernando Pessoa

Até há relativamente pouco tempo, desconhecia esta tradução de Fernando Pessoa (1888 - 1935) do poema "The Raven" (O Corvo) de Edgar Allan Poe (1809 - 1849). Incrível como até, numa mera tradução, se consegue vislumbrar a mestria de Fernando Pessoa.



"Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais
«Uma visita», eu me disse, «está batendo a meus umbrais.
É só isso e nada mais.»


Ah, que bem disso me lembro! Era no frio Dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P'ra esquecer (em vão) a amada, hoje entre hostes celestiais -
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas sem nome aqui jamais!


Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundindo força, eu ia repetindo,
«É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isso e nada mais».


E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
«Senhor», eu disse, «ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi...» E abri largos, franquendo-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.


A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais —
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
Isto só e nada mais.


Para dentro estão volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
«Por certo», disse eu, «aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais.»
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
«É o vento, e nada mais.»


Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais.
Foi, pousou, e nada mais.


E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
«Tens o aspecto tosquiado», disse eu, «mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais.»
Disse-me o corvo, «Nunca mais».


Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos seus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
Com o nome «Nunca mais».


Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, «Amigo, sonhos — mortais
Todos — todos lá se foram. Amanhã também te vais».
Disse o corvo, «Nunca mais».


A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
«Por certo», disse eu, «são estas vozes usuais.
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais
Era este «Nunca mais».


Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu'ria esta ave agoureira dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
Com aquele «Nunca mais».


Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sombras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sombras desiguais,
Reclinar-se-á nunca mais!


Fez-me então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
«Maldito!», a mim disse, «deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!»
Disse o corvo, «Nunca mais».


«Profeta», disse eu, «profeta — ou demónio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais,
Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!»
Disse o corvo, «Nunca mais».


«Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!», eu disse.
«Parte! Torna à noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste!
Tira-te de meus umbrais!»
Disse o corvo, «Nunca mais».


E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha dor de um demónio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão mais e mais,
E a minh'alma dessa sombra, que no chão há mais e mais,
Libertar-se-á... nunca mais!"


Tradução de "The Raven" de Edgar Allan Poe por Fernando Pessoa
Imagem: Albrecht Dürer da série "The Raven"

terça-feira, dezembro 18, 2007

"O vivo e insondável desejo da alma de atormentar-se a si mesma, de violentar a sua própria natureza, de fazer o mal pelo próprio mal, foi o que me levou a continuar e, afinal, a levar a cabo o suplício que infligira ao inofensivo animal. Uma manhã, a sangue frio, meti-lhe um nó corredio em torno do pescoço e enforquei-o no galho de uma árvore. Fi-lo com os olhos cheios de lágrimas, com o coração transbordante do mais amargo remorso. Enforquei-o porque sabia que ele me amara, e porque reconhecia que não me dera motivo algum para que me voltasse contra ele. Enforquei-o porque sabia que estava cometendo um pecado - um pecado mortal que comprometia a minha alma imortal, afastando-a, se é que isso era possível, da misericórdia infinita de um Deus infinitamente misericordioso e infinitamente terrível."
Texto: Excerto de "The Black Cat" de Edgar Allan Poe
Imagem: A minha linda Maria Alexandra

Sempre tive uma grande adversão aos "audio-books". Onde está o prazer de ouvir alguém a narrar uma história, um poema ou uma notícia? Onde está o maravilhoso odor de um livro a ser desfolhado?
Porém, existem excepções. Afinal, poucas são as regras sem excepções... Aqui está o link através do qual podem ouvir todo o conto "The Black Cat" de Edgar Allan Poe, narrado pela extraordinária Diamanda Galás, uma cantora, poetisa e compositora, com capacidade de nos transportar numa viagem ao Inferno... usando apenas a sua voz.