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sexta-feira, fevereiro 17, 2012

Memórias

"Havia também os que se apresentavam sozinhos, braços de fome, a oferecerem a nádega à seringa a troco de uma cama onde dormir, clientes habituais que o porteiro reenviava, de imperioso braço estendido à estátua de Marechal Saldanha, para as árvores do Campo de Santana que o escuro confundia numa névoa de corpos abraçados. Aqui, pensou o médico, desagua a última miséria, a solidão absoluta, o que nós próprios não aguentamos suportar, os mais escondidos e vergonhosos dos nossos sentimentos, o que nos outros chamamos de loucura que é afinal a nossa e da qual nos protegemos a etiquetá-la, a comprimi-la de grades, a alimentá-la de pastilhas e de gotas para que continue existindo, a conceder-lhe licença de saída ao fim de semana e a encaminhá-la na direção de uma «normalidade» que provavelmente consiste apenas no empalhar em vida."

Texto: Excerto de "Memórias de Elefante" de António Lobo Antunes
Imagem: Fotograma de "Requiem for a Dream" de Darren Aronofsky

segunda-feira, agosto 25, 2008

"Eu a feri-la ferindo-me. Apetecia-me bater-lhe como se me batesse."

Texto: Extracto de "A Morte de Carlos Gardel" de António Lobo Antunes
Imagem: "O Macaco Vermelho Bate na Mulher" (1981) de Paula Rego

sexta-feira, agosto 22, 2008

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Considerava-me imortal; soube, com horrível violência, que o não era. Ter passado o que passei alterou-me por completo a existência e suponho que modificou também o que produzo. Os médicos não tratam: tornam a dar-nos a eternidade sob a forma de um infinito futuro, isto é uma porção limitada de dias que apesar de tudo acreditamos, contra a evidência, não terminar nunca. Agora tenho essa eternidade. Por quanto tempo não sei; o silêncio rodeia-nos por toda a parte, quer dizer, a ameaça dele. Não podemos deixar que ele nos assuste. Gastei meses a encostar o ouvido à terra do meu corpo, tenso, à espera. Agora não: fico de pé na minha teimosa precariedade.

António Lobo Antunes
Extracto de "Morto Cobrido de Amor" in "Visão" de 7 de Julho

sábado, julho 05, 2008

"O casamento no fundo é isto, duas pessoas sem alma para cozinhar e nada para dizer partilhando peúgas em detergente e frangos de churrasco".

"A Morte de Carlos Gardel" de António Lobo Antunes