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sexta-feira, fevereiro 17, 2012

Memórias

"Havia também os que se apresentavam sozinhos, braços de fome, a oferecerem a nádega à seringa a troco de uma cama onde dormir, clientes habituais que o porteiro reenviava, de imperioso braço estendido à estátua de Marechal Saldanha, para as árvores do Campo de Santana que o escuro confundia numa névoa de corpos abraçados. Aqui, pensou o médico, desagua a última miséria, a solidão absoluta, o que nós próprios não aguentamos suportar, os mais escondidos e vergonhosos dos nossos sentimentos, o que nos outros chamamos de loucura que é afinal a nossa e da qual nos protegemos a etiquetá-la, a comprimi-la de grades, a alimentá-la de pastilhas e de gotas para que continue existindo, a conceder-lhe licença de saída ao fim de semana e a encaminhá-la na direção de uma «normalidade» que provavelmente consiste apenas no empalhar em vida."

Texto: Excerto de "Memórias de Elefante" de António Lobo Antunes
Imagem: Fotograma de "Requiem for a Dream" de Darren Aronofsky

domingo, agosto 22, 2010

Memórias De Um Sonhador

"E outra vez me pergunto: o que fizeste com esses anos? Onde sepultaste os teus melhores anos? Viveste ou não viveste? Olha, digo para mim, olha que frio se põe no mundo. Mais anos passarão e atrás deles virá a solidão sombria, virá com o seu cajado, a velhice tremente, e com isso a mágoa e a amargura. Tornar-se-á pálido o teu mundo fantástico, vão esmorecer os teus sonhos, murchar, cair como folhas amarelas das árvores... Que triste ficar sozinho, completamente sozinho, sem ter sequer o que lamentar - nada, absolutamente nada... porque todo o perdido era nada, um zero estúpido, nada mais que uma ilusão!"

Texto: Excerto de "Noites Brancas" de Fiódor Dostoiévski
Imagem: Fotograma de "Le Notti Bianche" de Luchino Visconti

domingo, junho 20, 2010

Argumento Adaptado: Carrie

"Devia ter-me matado quando ele a pôs em mim - disse, claramente. - Depois da primeira vez, antes de casarmos, jurou: nunca mais. Disse que fora apenas... um descuido. Acreditei. Caí, perdi o bebé e esse foi o juízo de Deus. Pensei que o pecado tinha sido expiado. Pelo sangue. Mas o pecado nunca morre. O pecado... nunca... morre. - Os seus olhos cintilavam. - Ao príncipio correu tudo bem. Vivemos sem pecado. Dormíamos na mesma cama, às vezes ventre com ventre, e, oh, eu sentia a presença da Serpente, mas... nunca... o fizémos... até... - Começou a sorrir cruelmente, terrivelmente. - E nessa noite vi-o a olhar-me daquele modo. Ajoelhámos a pedir forças e ele tocou-me... Naquele sítio. Naquele sítio da mulher. Mandei-o sair de casa. Esteve horas fora e eu rezei por ele. Vi-o mentalmente, a percorrer as ruas da meia-noite e a lutar com o Demónio como Jacob lutou com o Anjo do Senhor. E quando regressou o meu coração encheu-se de gratidão. Só quando ele entrou é que cheirei o uísque no seu hálito. E tomou-me. Tomou-me. Tomou-me ainda com o fedor do uísque da imunda estalagem no hálito, tomou-me... e eu gostei! - Gritou as últimas palavras, como se as atirasse ao tecto. - Gostei de toda aquela fornicação e das suas mãos nojentas em mim, EM TODA EU!"



O livro: "Carrie" de Stephen King
O filme: "Carrie" de Brian de Palma

quinta-feira, abril 01, 2010

Páginas Soltas

"Janeiro de 1995, quinta-feira. Em roupão e de cigarro apagado nos dedos, sentei-me à mesa do pequeno-almoço onde já estava a minha mulher com a Sylvie e o António que tinham chegado na véspera a Portugal. Acho que dei os bons-dias e que, embora calmo, trazia uma palidez de cera. Foi numa manhã cinzenta que nunca mais esquecerei, as pessoas a falarem não sei de quê e eu a correr a sala com o olhar, o chão, as paredes, o enorme plátano por trás da varanda. Parei na chávena de chá e fiquei. «Sinto-me mal, nunca me senti assim», murmurei numa fria tranquilidade.
Silêncio brusco. Eu e a chávena debaixo dos meus olhos. De repente viro-me para a minha mulher: «Como é que tu te chamas?»
Pausa. «Eu? Edite.» Nova pausa. «E tu?»
«Parece que é Cardoso Pires», respondi então."

Texto: Excerto de "De Profundis, Valsa Lenta" de José Cardoso Pires
Imagem: "Auto-retrato" de Egon Schiele

sábado, janeiro 16, 2010

Páginas Soltas

"Vi-o aqui no cemitério, avançava entre os túmulos, espectro entre os espectros. Encontrei-o, e súbito me apercebi que não tinha diante de mim um vivo, o seu rosto era o de um cadáver, os seus olhos olhavam já para as penas eternas. Naturalmente, só na manhã seguinte, sabendo da sua morte, eu compreendi que tinha encontrado o seu fantasma, mas já naquele momento me dei conta que estava a ter uma visão e que diante de mim estava uma alma danada, um lémure... Oh, Senhor, com que voz de túmulo me falou! «Estou condenado!», assim me disse. «Tal como me vês, tens diante de ti um retornado do inferno»."

Texto: Excerto de "O Nome da Rosa" de Umberto Eco

sábado, setembro 12, 2009

Páginas Soltas


"Primeiro as cores.
Depois os humanos.
É geralmente assim que eu vejo as coisas.
Ou, pelo menos, tento.

EIS UM PEQUENO FACTO
Vocês vão morrer.

Para falar francamente, estou a tentar mostrar-me prazenteira acerca deste tópico, embora a maioria das pessoas sinta dificuldade em me acreditar, por muito que eu proteste. Por favor, confiem em mim. Eu posso definitivamente ser presenteira. Posso ser amável. Agradável. Afável. E isso só nos A's. Só não me peçam para ser simpática. Simpatia não tem nada a ver comigo.

REACÇÃO AO FACTO ACIMA MENCIONADO
Isto preocupa-os?
Peço-lhes - não tenham medo.
Sou seguramente justa.

É claro, uma apresentação.
Um começo.
Que é feito das minhas boas maneiras?
Podia apresentar-me devidamente, mas não é de facto necessário. Vocês conhecer-me-ão suficientemente bem e suficientemente depressa, dependendo de um amplo leque de variáveis. Basta dizer determinado ponto do tempo, me encontrarão debruçada sobre vós, tão jovial quanto possível. A vossa alma estará nos meus braços. No meu ombro pousará uma cor. Levar-vos-ei docemente comigo."


Excerto de "A Rapariga que Roubava Livros de Markus Zusak
Imagem: Alfred Rethel

domingo, julho 19, 2009

Leitura a 100%

É verdade! - nervoso - muito... eu andava e ando terrivelmente nervoso. Mas porque dirás tu que estou louco? A doença apurou os meus sentidos, não os destruiu, não os entorpeceu. O mais apurado de todos os sentidos foi a audição. Eu ouvi todas as coisas existentes no céu e na terra. Eu ouvi muitas coisas no inferno. Como, então, posso eu estar louco? Escuta! E observa com que sobriedade, com que calma eu te posso contar a história toda.
É impossível dizer como a ideia surgiu no meu cérebro, mas uma vez concebida, assombrou-me dia e noite. Sem nenhuma objecção. Sem nenhuma paixão. Eu adorava o velho. Ele nunca me tinha enganado. Ele nunca me tinha insultado. Eu não cobiçava o ouro dele. Eu penso que era o olho dele! Sim, era isso! Ele tinha o olho de um abutre, um pálido olho azul com uma película por cima. Sempre que o olhar dele caía sobre mim o meu sangue gelava, e gradualmente - muito gradualmente - Eu decidi-me a tirar a vida ao velho e assim livrar-me do olho para sempre.
Agora este é o ponto. Imaginas-me louco. Os loucos nada sabem. Mas tu devias ter-me visto. Devias ter visto como procedi sabiamente, com que cautela, com que providência, com que dissimulação eu me pus ao trabalho! Eu nunca fui mais simpático para o velho do que durante toda a semana antes de o matar. E todas as noites, por volta da meia-noite, eu rodei a maçaneta da sua porta e abri-a - oh, com que suavidade! E depois, quando eu fiz uma abertura suficiente para a minha cabeça, eu introduzi uma lanterna com a luz oculta, completamente fechada, tapada, de tal forma que nenhuma luz saía para fora. Depois eu enfiei a cabeça. Oh, rir-te-ias de ver o quão astuciosamente introduzi a cabeça! Eu movi-a vagarosamente, muito, muito vagarosamente, para que não perturbasse o sono do velho. Levei uma hora a colocar a cabeça na frincha por forma a vê-lo deitado na cama. Hah! Teria um louco esta sagacidade? Depois, quando a cabeça estava já dentro do quarto, eu destapei a lanterna cautelosamente - oh, tão cautelosamente - cautelosamente (pois as roldanas da tampa rangiam). Eu abri só uma nesga pequena, tão estreita que apenas saiu um único raio de luz que caiu sobre o olho do abutre. Isto eu fiz por sete longas noites, todas as noites à meia-noite. Mas em todas elas o olho estava cerrado, e como tal era impossível fazer o trabalho; pois não era o velho que me atormentava, mas sim o seu olho maléfico. Todas as manhãs quando o sol nasceu, eu entrei impertinentemente no quarto e falei corajosamente com ele, chamando-o de forma carinhosa pelo seu nome, e perguntando como havia passado a noite. Assim vês que ele teria que ser um velho muito sagaz, para suspeitar que todas as noites, precisamente à meia-noite, eu o vigiava enquanto ele dormia.
Na oitava noite eu tive mais cautela do que o costume ao abrir a porta. O ponteiro dos minutos de um relógio move-se mais rapidamente do que se moveu a minha mão, Nunca antes daquela noite eu havia sentido a extensão das minhas capacidades, da minha sagacidade. Eu mal podia conter o meu sentido de triunfo. Só de pensar que ali estava eu, a abrir a porta, pouco a pouco, e ele nem sequer sonhava com as minhas secretas intenções ou pensamentos. Eu dei verdadeiramente uma risada, e talvez ele me tenha ouvido, pois mexeu-se subitamente na cama, como que alarmado. Agora deves pensar que me retirei. Mas não. O quarto dele estava tão negro como um poço com a escuridão cerrada, (pois as persianas estavam completamente fechadas, por medo dos ladrões,) e portanto eu sabia que ele não podia ver a abertura da porta, e eu continuei a empurrá-la firmemente, firmemente.
Eu tinha a cabeça lá dentro, e estava quase a abrir a lanterna, quando o meu polegar escorregou na portinhola de latão, e o velho ergueu-se da cama, gritando - "Quem está aí?"
Eu manti-me sossegado e nada disse. Durante uma hora inteira eu não mexi um músculo, e ao longo desse tempo não o ouvi deitar-se de novo. Ele ainda estava sentado na cama a ouvir, tal como eu tinha feito, noite após noite, escutando o bater dos relógios na parede.
No momento ouvi um gemido, e soube que era o gemido do terror de morte. Não era o gemido de dor ou de angústia. Oh, não! Era o som abafado que se solta do fundo da alma quando sobrecarregada de temor. Eu conhecia bem o som. Muitas noites, justamente à meia-noite quando o mundo dormia, saiu de dentro do meu próprio peito, intensificando com o seu eco espantoso os terrores que me desorientavam. Eu conhecia-o bem. Eu sabia o que velho sentia, e tinha pena dele, apesar de o meu coração dar risadas. Eu sabia que ele estava acordado desde o primeiro ligeiro ruído, quando se virou na cama. Os seus medos vinham crescendo desde então. Ele estava a tentar imaginá-los casuais, mas não foi capaz. Ele dizia para si próprio - "Não é mais do que o vento na chaminé, é apenas um rato a atravessar o chão," ou "é apenas uma tábua que rangeu, sozinha." Sim, ele tentava confortar-se com estas suposições, mas percebeu que tudo tinha sido em vão. Tudo em vão, porque a morte, ao aproximar-se dele tinha colocado a sua sombra negra diante dele, e envolvido a vítima. Foi a influência funesta (melancólica) da sombra imperceptível que o fez sentir, ainda que não pudesse ver ou ouvir, a presença da minha cabeça dentro do quarto.
Quando eu já tinha esperado muito tempo, muito pacientemente, sem o ouvir deitar, resolvi abrir um pouco, uma pequena, muito pequena frincha da lanterna. Então abri, não podes imaginar com que subtileza, até que, ao comprido um simples raio de luz, da grossura da teia de aranha, disparou da frincha da lanterna e aterrou sobre o olho de abutre.
Estava aberto, muito, muito aberto, e fiquei furioso assim que o vislumbrei. Vi-o perfeitamente. Todo um azul pálido, com um véu hediondo por cima que arrepiou as extremidades dos meus ossos. Mas não conseguia ver mais nenhuma parte do corpo do velho, pois eu tinha dirigido o raio de luz como que por instinto, precisamente para o ponto maldito.
E não te disse eu, que o que tomas por loucura não é mais do que o apuramento de sentidos? Agora, digo eu, veio aos meus ouvidos um som subtil, insípido, rápido, tal como faz um relógio quando envolvido em algodão. Eu conhecia bem esse som, também. Era a batida do coração do velho. Aumentou-me a fúria, como a batida de um tambor estimula o soldado e o encoraja.
Mas ainda aí eu me retive quieto. Eu mal respirava. Segurava a lanterna sem me mexer. Eu tentei, tão firmemente quanto pude, manter o raio de luz sobre o olho. Entretanto a infernal batida do coração aumentou. Tornou-se cada vez mais supremo! Tornou-se mais alta, digo eu, mais alta a cada instante! Entendes-me bem? Eu disse que estou nervoso: e estou. E agora no silêncio da noite, no silêncio perverso daquela casa velha, um som tão estranho como este excitou-me até ao ponto de me aterrorizar descontroladamente. No entanto, por mais uns minutos consegui reter-me quieto. Mas a batida tornou-se mais alta, mais alta! Eu pensei que o coração fosse rebentar. Agora uma nova preocupação apoderou-se de mim, o som seria ouvido por um vizinho! A hora do velho tinha chegado! Com um grito, eu abri a lanterna e saltei para dentro do quarto. Ele guinchou uma vez, só uma vez. Num instante eu arrastei-o para o chão e larguei a pesada cama em cima dele. Depois sorri alegremente, ao ver a tarefa cumprida. Mas, por muitos minutos, a batida do coração continuou com um som abafado. Isto, no entanto, não me incomodava, não seria ouvido para lá das paredes. Aos poucos cessou. O velho estava morto. Eu removi a cama e examinei o cadáver. Sim, ele estava que nem uma pedra, morto que nem uma pedra. Coloquei a minha mão sobre o coração e deixei-a lá por muitos minutos. Não havia pulsação. Estava morto que nem uma pedra. O olho dele não me perturbaria mais.
Se ainda me julgas louco, não me julgarás mais quando te descrever a sagacidade das precauções que eu tomei para ocultar o corpo. A noite desfalecia, e eu trabalhei apressadamente, mas em silêncio. Primeiro que tudo desmembrei o cadáver. Cortei a cabeça, e os braços e as pernas.
Depois retirei três tábuas do chão do quarto, e larguei tudo entre as fundações. Depois, eu voltei a colocar as tábuas tão inteligentemente, tão astuciosamente, que nenhum olho humano, nem mesmo o do velho, poderia detectar algo de errado. Não havia nada para limpar, nenhuma mancha de nenhum tipo, nem uma pinga de sangue. Eu tinha sido demasiado prudente para isso. Um tubo tinha resolvido tudo, ah! aha!
Quando eu tinha dado por terminado estes afazeres, eram quatro da manhã. Ainda tão escuro como à meia-noite. Aquando da batida da hora no relógio, vieram-me bater à porta da rua. Eu desci para abrir descontraidamente, pois o que tinha eu a temer? Entraram três homens, que se apresentaram, com perfeita suavidade, como inspectores da polícia. Um guincho tinha sido ouvido por um vizinho durante a noite, suspeições de coisas estranhas tinham sido levantadas, queixas tinham sido feitas na esquadra, e eles (inspectores) tinham sido destacados para averiguar as circunstâncias.
Eu sorri, pois o que tinha a temer? Dei-lhes as boas vindas. - O guincho - disse eu - fui eu próprio num sonho. O velho - mencionei - está ausente na província. Conduzi as minhas visitas pela casa toda. Permiti-lhes procurar, procurar bem. Finalmente, levei-os ao quarto dele. Mostrei-lhes os seus pertences, guardados, não haviam sido tocados. No entusiasmo da minha confiança, trouxe cadeiras para o quarto, e queria-os aqui para descansar das suas fadigas, enquanto eu próprio na audacidade do meu perfeito triunfo, coloquei a minha cadeira sobre o preciso lugar por trás do qual tinha largado o cadáver da vítima.
Os inspectores estavam satisfeitos. O meu comportamento tinha-os convencido. Era singularmente descontraído. Eles sentaram-se, e enquanto eu respondia alegremente, eles conversaram sobre banalidades. Mas demoraram-se. Eu senti-me a ficar pálido e desejei que partissem. A minha cabeça doía, e imaginei um zumbido nos meus ouvidos: mas eles ainda estavam sentados e ainda conversavam. O zumbido tornou-se mais claro, mas falei mais abertamente para me livrar do ruído, mas continuou e tornava-se mais definido. Até que, o fim de um tempo, eu percebi que o som não estava nos meus ouvidos.
Sem dúvida fiquei muito pálido, mas falei fluentemente, e em voz bem alta. No entanto o som aumentou - e o que podia eu fazer? Era um som abafado, insípido, rápido, bastante parecido com o som que um relógio faz quando envolvido em algodão. Eu recuperei o fôlego e no entanto os inspectores não o tinham ouvido. Eu falei mais rapidamente, mais veementemente, mas o som aumentava firmemente. Eu levantei-me e argumentei sobre futilidades, num tom agudo e gesticulando violentamente, mas o som aumentava firmemente. Porque não se iam embora? Eu desloquei-me no chão para trás e para a frente com passos fortes, como que enfurecido com as observações dos homens, mas o som aumentava firmemente. Oh Deus! Que podia eu fazer? Eu espumava. Enfureci-me, eu juro! Eu girei a cadeira na qual estava sentado, e bati-a contra as tábuas, mas o som erguia-se continuamente. Tornou-se cada vez mais alto, mais alto, mais alto! E os homens ainda conversavam agradavelmente, e sorriam. Seria possível que não estivessem a ouvir? Deus Todo-Poderoso! Não, não! Eles ouviam! Eles suspeitavam! Eles sabiam! Eles estavam a fazer troça do meu terrível medo. Assim eu pensei, e assim eu penso. Mas qualquer coisa era melhor do que esta agonia! Qualquer coisa era melhor do que esta zombaria! Eu já não podia suportar aqueles sorrisos hipócritas! Eu senti que ou gritava ou morria! E agora de novo! Escuta! Mais alto! Mais alto! Mais alto! Mais alto!
"Malvados!" eu guinchei, "Parem de disfarçar! Eu admito o que fiz! Levantem as tábuas! Aqui, aqui! É o bater do coração hediondo dele!"

Texto: "O Coração Delator" de Edgar Allan Poe
Imagens: Harry Clarke

segunda-feira, julho 13, 2009

Argumento Adaptado: As Horas

"O corpo do tordo ainda lá está (é curioso como os gatos e os cães da vizinhança não estão interessados), pequenino até mesmo para um pássaro, tão definitivamente sem vida, aqui no escuro, como uma luva perdida, este pequeno e vazio punhado de morte. Virginia pára junto dele. Agora é lixo; perdeu a beleza da tarde do mesmo modo que Virginia perdeu a sua admiração, à mesa do chá, por chávenas e casacos, do mesmo modo que o dia está a perder o seu calor. De manhã, com uma pá, Leonard recolhe pássaro, erva e rosas e deita tudo fora. Virginia pensa na muito maior quantidade de espaço que um ser ocupa na vida do que na morte, na muita ilusão de tamanho contida em gestos e movimentos, na respiração. Mortos, somos revelados nas nossas verdadeiras dimensões, que são surpreendentemente modestas. Não sentira ela, Virginia, em si mesma em espaço vazio, de uma pequenez espantosa, onde seria natural que um sentimento forte residisse?"



O livro: "As Horas" de Michael Cunningham
O filme: "As Horas" de Stephen Dalory

quarta-feira, junho 10, 2009

Páginas Soltas

"Os velhotes já se tinham ido deitar. Giles dobrou o jornal e apagou a luz. Era a primeira vez durante todo o dia que os deixavam a sós, e ambos permaneceram em silêncio. Agora, sem a presença de mais ninguém, o ódio tornava-se visível; o mesmo se passava com o amor. Era necessário que brigassem antes de se deitar; depois da briga, haveria tempo para se abraçarem. Era provável que desse abraço nascesse outra vida. Mas primeiro tinham de lutar, como os cães de caça lutam com as raposas, no coração do negrume, nos campos da noite".


Texto: Excerto de "Entre os Actos" de Virginia Woolf
Imagem: Fotograma de "À ma Soeur" de Catherine Breillat

sábado, novembro 29, 2008

In Memoriam

"Nunca mais serei
um homem puro nem
impuro. Deixei de ser
quem julguei ser - um rio
independente. Agora
sou apenas uma sombra perdida
no mar de névoa
a que chamam vida."

Imagem: Mr. Lynch
Poema: "Nunca mais serei" de Casimiro de Brito
Este post também se encontra disponível no blog "O BAR DO OSSIAN"

segunda-feira, novembro 10, 2008

"É preciso fazer despertar a sensação de que a vida desliza tranquilamente. No momento em que conseguimos isso, estamos tão próximos da morte como da vida. Já não vivemos, segundo os nossos conceitos terrenos mas também já não podemos morrer, pois, com a vida, eliminamos a morte. É o momento da imortalidade, o momento em que a alma sai da estreiteza do nosso cérebro e penetra nos maravilhosos jardins da sua própria vida."

Robert Musil - "O Jovem Törless"

sexta-feira, outubro 17, 2008

Argumento Adaptado: A Pianista

O LIVRO:
"Amará o seu domador o antigo animal selvagem, hoje animal de circo? Pode ser que sim, mas não é obrigatório. Dependem ambos um do outro, de forma desesperada. Um precisa do outro para se inchar como um sapo-rei, ajudado pelas habilidades daquele à luz dos holofotes, e para o Barrabás da música, o outro precisa deste para possuir um ponto de referência no meio do caos generalizado que lhe ofusca o olhar. O animal tem de saber o que fica por cima e o que fica por baixo, senão de repente aparece a fazer o pino. Sem um treinador, o animal estaria condenado a precipitar-se desamparado em queda livre, ou a vagar à deriva no espaço e estraçalhar com dentes, garras e goelas, sem critério, tudo que se lhe cruza no caminho. Porém, assim, há sempre alguma pessoa que lhe diz o que vale a pena fruir. E o seu amo, o domador, faz estalar o chicote! Ora louva, ora castiga, é conforme. É conforme o merecimento do animal."



O FILME:

(Atalanta Filmes)


O livro: "A Pianista" de Elfriede Jelinek
O filme: "A Pianista" de Michael Haneke

sábado, setembro 20, 2008

"Não é o amor que faz o casamento, é o consentimento.
Le consentiment. Le consentiment.
E, na verdade, quantas vezes o amor desfaz o casamento..."

Texto: Paul Claudel - "Le Solier de Satin"
Imagem: Roy Lichtenstein - "Kiss V"

segunda-feira, agosto 25, 2008

"Eu a feri-la ferindo-me. Apetecia-me bater-lhe como se me batesse."

Texto: Extracto de "A Morte de Carlos Gardel" de António Lobo Antunes
Imagem: "O Macaco Vermelho Bate na Mulher" (1981) de Paula Rego

sexta-feira, agosto 22, 2008

.

Considerava-me imortal; soube, com horrível violência, que o não era. Ter passado o que passei alterou-me por completo a existência e suponho que modificou também o que produzo. Os médicos não tratam: tornam a dar-nos a eternidade sob a forma de um infinito futuro, isto é uma porção limitada de dias que apesar de tudo acreditamos, contra a evidência, não terminar nunca. Agora tenho essa eternidade. Por quanto tempo não sei; o silêncio rodeia-nos por toda a parte, quer dizer, a ameaça dele. Não podemos deixar que ele nos assuste. Gastei meses a encostar o ouvido à terra do meu corpo, tenso, à espera. Agora não: fico de pé na minha teimosa precariedade.

António Lobo Antunes
Extracto de "Morto Cobrido de Amor" in "Visão" de 7 de Julho

quinta-feira, julho 24, 2008

redrum

"O vento irrompeu novamente em rajadas, obrigando-o a piscar os olhos e, entretanto, a sombra junto da paragem dos autocarros desvanecera-se... se é que alguma vez lá estivera. Ficou à janela durante (um minuto? uma hora?) ainda mais tempo, mas nada mais aconteceu. Até que por fim se esgueirou novamente para dentro da cama, puxou os cobertores para o queixo e ficou a observar as sombras que o lampião da rua projectava intrusamente, a transformar-se numa selva sinuosa repleta de plantas carnívoras que apenas procuravam envolvê-lo, arrebatar-lhe a vida, e arrastá-lo até ao mais fundo de uma enorme escuridão, onde reluzia a vermelho uma palavra sinistra: Redrum."

Quem leu o livro ou viu o filme sabe o que quer dizer "redrum"... Se não for o seu caso, deixo-vos uma pista: trata-se de um anagrama em inglês. Alguém arrisca?

Texto: Excerto de "The Shining" de Stephen King
Imagem: Fotograma do filme "The Shining" de Stanley Kubrick

sábado, julho 05, 2008

"O casamento no fundo é isto, duas pessoas sem alma para cozinhar e nada para dizer partilhando peúgas em detergente e frangos de churrasco".

"A Morte de Carlos Gardel" de António Lobo Antunes

domingo, junho 08, 2008

Argumento Adaptado: La Princesse De Clèves

"Quelque dangereux que soit le parti que je prends, je le prends avec joie pour me conserver digne d’être à vous. Songez que pour faire ce que je fais, il faut avoir plus d’amitié et plus d’estime pour un mari que l’on n’en a jamais eu : conduisez-moi, ayez pitié de moi, et aimez-moi encore, si vous pouvez."



O livro: "La Princesse de Clèves" de Mme. de Lafayette
O filme: "La Lettre" de Manoel de Oliveira

sexta-feira, março 21, 2008

"Coitados!... Os passos daquele que ainda hoje talvez se despediu de vós contando voltar a encontrar-vos poucas horas depois não tornarão a medir o caminho da casa em que o esperam; a sua voz não responderá mais à voz que o chame; os seus olhos nunca mais se embeberão nos olhos que o fitavam; os seus lábios não voltarão outra vez a aproximar-se dos lábios que se colavam nos dele! Eu não choro a tua memória, porque não te conheço, porque nunca nos encontrámos, porque não sei quem és. Mas não quero insultar a dor que adeja sobre a tua morte, deixando-me dormir na mesma casa em que jazes insepulto, enquanto alguém te espera vivo no mundo."


Eça de Queirós; O Mistério da Estrada de Sintra

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

A Paz Em Tempo De Guerra

"Minha querida Isabel, neste preciso momento celebra-se uma missa de corpo presente. O melhor de todos nós foi morto. Minha querida, ou Deus não existe ou é o maior cínico do Universo. Só para tu veres, o Santos, o soldado que morreu, tinha a alcunha de Padre. Queria ir para o seminário, o Jaime estava a ajudá-lo. Rezava o terço todos os dias e lia a Bíblia. Quando fomos buscar as coisas dele, encontrámo-la aberta no livro do profeta Isaías. «Brotará um rebento no tronco de Jessé, e das suas raízes um renovo frutificará. E repousará sobre ele o espírito do Senhor, o espírito de sabedoria e inteligência». Um pouco mais à frente diz: «Julgará com justiça os pobres [...] e ferirá a terra com a vara de sua boca, e com o sopro dos seus lábios matará o ímpio.» Depois segue com estas conclusões: «E morará o lobo com o cordeiro, e o leopardo com o cabrito se deitará, e o bezerro, e o filho do leão e a nédia ovelha viverão juntos, e um menino pequeno os guiará». Isto pode ser muito bonito, minha querida, mas é a mais completa das mentiras. Estou tão revoltado, Isabel! Eu, que até pensei que me podia divertir. Mas olho para este pessoal que está na missa, acagaçado, procuro um sentido para a vida, sem que a vida tenha qualquer sentido. É o caos. E esta coisa do lobo ir morar com o cordeiro é uma grande treta. O mundo não é dos humildes nem dos mansos, é dos mais fortes, dos mais manhosos. Que raio de Deus é este que nem protege os que lhe são fiéis? Era o que a leitura parecia dizer: «Julgará com justiça os pobres e matará o ímpio». Afinal, morreu o desgraçado. Há aí uma malta que até vai comungar. Convém. Mas o único que levava a religião a sério era o Santos. E foi o primeiro a ir."

Texto: Excerto de "Deixei o meu Coração em África" (2005) de Manuel Arouca.