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sábado, abril 25, 2009

Cahiers Du Cinéma Portugais - VI

Na madrugada de 25 de Abril de 1974, o Rádio Clube Português emite a célebre e interdita canção de Zeca Afonso, "Grândola Vila Morena". Trata-se um código combinado com o clandestino Movimento das Forças Armadas que nessa madrugada levou um grupo de capitães a executar um golpe de estado e acabar com o regime do Estado Novo. O capitão Salgueiro Maia marcha com o seu regimento sobre Lisboa, decidido a tomar a capital sem derramamento de sangue. Entretanto, Manuel, um outro veterano da guerra de África, toma com um punhado de camaradas o Rádio Clube Português que se vai transformar no centro difusor do progresso da revolução. Maia chega a Lisboa e estaciona-se no Quartel do Carmo onde espera uma reacção de Marcelo Caetano.


"Capitães de Abril" foi o projecto mais arrojado da carreira da actriz Maria de Medeiros, na sua qualidade de realizadora. Trata-se de uma das mais impressionantes produções do cinema português e a mais cara à data da sua produção (900.000 contos). Após 13 anos de amadurecimento e partindo das memórias do capitão Salgueiro Maia, Maria recria com sensibilidade e emotividade o dia que mudou um país. Um golpe de estado absolutamente genial, na sua concepção e execução, que espantou o Mundo e que Maria aborda com contagiante entusiasmo, misturando personagens reais com imaginários. Um belo filme de reconstituição histórica, montado com sinceridade, romantismo e inteligência, que é no limite uma justa homenagem à memória de Salgueiro Maia e a um dia inesquecível que mudou Portugal.


Título: "Capitães de Abril"
Realização: Maria de Medeiros
Produção: Jacques Bidou
Intérpretes: Stephano Accorsi, Maria de Medeiros, Joaquim de Almeida, Frédéric Pierrot, Fele Martinez, Luís Miguel Cintra
Ano: 1999
Edição em DVD: Lusomundo


Imagem e vídeo: Lusomundo
Post já publicado no blog "O Bar de Ossian"

sábado, janeiro 31, 2009

Cahiers Du Cinéma Portugais (V)

Que imprudente ideia, a do príncipe, ter interrompido Branca de Neve no melhor dos sonos e, com um beijo que ela negará sempre, retirá-la do caixão de vidro para a restituir à vida, isto é, à carne, e arrogar-se direitos sobre ela. Se Branca de Neve deseja morrer ou regressar ao país dos seus anões, é porque não está convencida da boa-fé da rainha. A sua madrasta não quis envenená-la? Quando Branca de Neve, salva pelo príncipe, voltou à vida, a rainha, graças aos seus beijos, não incitou, acto contínuo, o caçador a apunhalá-la? Baseado na obra «Schneewittchen» do escritor suisso Robert Walser, João César Monteiro assina este «Branca de Neve» em 2000, três anos antes de «Vai e Vem», a derradeira obra de um dos mais conceituados cineastas portugueses. Apesar desta obra ter gerado uma grande polémica em Portugal devido à quase inexistência de imagens, este filme foi muito bem recebido pelos críticos de todo o Mundo (mais uma vez, a excepção foi Portugal).

«É preciso morrer para aprender a viver, e o filme experimenta com graça esse outro-mundo. Em todo o caso, para evocar Walser, Monteiro, passa pela obra.» - Jean-Marc Lalanne; "Libération".

«Arrisquemos hipóteses. A provocação dadaísta, a imprecação epistolar, a estalada no gosto do público. A proximidade espiritual do cineasta e do escritor, sob o signo do humor melancólico, da tentação epicurista, da impossível procura pela beleza, e da loucura que ronda. O texto walseriano é admiravelmente dito em português.» - Jacques Mandelbaum; "Le Monde".

«Filme afrontosamente teórico e consagrado à perda da luz ou às incestuosas relações imagem/som, «Branca de Neve» é sobretudo um grande filme sensual, onde a ressurreição da heroína do conto as suas hesitações entre desaparecimento doloroso e esperança de retorno, perdão e ressentimento, não são tratados senão através da matéria fílmica.» - Frédéric Bonnaud; "Les Inrockuptibles".

«Uma obra prima de síntese e de provocação às últimas consequências. Assina-a, não por acaso, um génio do cinema contemporâneo como João César Monteiro. Há no trabalho de Monteiro muito do que é hoje em dia reflexão sobre o corpo cinema. Este filme é uma magnífica lição de cinema.» - Cristina Piccino; "Il Manifesto".



"Mais do que ver, gostaria de ouvir" - Robert Walser


Vídeo e imagem: Madragoa Filmes
Post já publicado no blog "O Bar do Ossian"

sexta-feira, maio 16, 2008

A Não Perder...

Peter Greenaway. Este nome é por si só sinónimo de ida obrigatória ao cinema.
Estreou no passado dia 7 "A Ronda da Noite", a mais recente obra deste realizador britânico. Nesta obra, Greenaway dá a sua visão muito pessoal sobre o quadro "A Ronda da Noite" de Rembrandt. Não podemos esquecer que o realizador é também um pintor, logo não é um leigo no campo pictórico. Podemos discordar da tese apresentada no filme sobre "A Ronda da Noite" (ou, «j'accuse de Rembrandt», como Greenaway a apelidou) mas o filme... esse é belíssimo.
Aliás, outra coisa não se pode esperar de Peter Greenaway...



sexta-feira, maio 02, 2008

Cahiers Du Cinéma Portugais (III)

"A Mulher Que Acreditava Ser
Presidente dos Estados Unidos da América"
de João Botelho
(2003)
Muitos críticos de cinema afirmaram que o filme "A Bomba" (2002) de Leonel Vieira tinha tanta piada como um pingo de solda num olho. Pois "A Mulher Que Acreditava Ser Presidente Dos Estados Unidos Da América" encontra-se no mesmo patamar. Porém, uma frase proferida pela presidente (Alexandra Lencastre), salva o filme da catástofe total:

"Eu sou a presidente dos Estados Unidos da América, posso fazer o que quiser!"

Digam lá se João Botelho não conseguiu reproduzir na perfeição o ego dos presidentes norte-americanos...

sexta-feira, março 07, 2008

Para Que A Memória Nunca Esqueça...

... é necessário ver e rever os nossos erros do passado. Sim, nossos. Todos nós somos, de certa forma, culpados...
É talvez por isso que "Nuit et Brouillard" ("Noite e Nevoeiro", em português) realizado por Alain Resnais em 1956, é um documento tão importante da história recente da Humanidade.
Fui hoje à Cinemateca assistir (mais uma vez) à projecção de um dos mais poderosos filmes de sempre da história do cinema. Se não estão de acordo com esta minha avaliação é porque, de certeza, nunca assistiram a este filme. Pé ante pé, Alain Resnais esmaga-nos durante os 31 minutos de duração do filme. Pé ante pé, Alain Resnais rasga-nos o ventre durante os 31 minutos de duração do filme. Pé ante pé, Alain Resnais deixa-nos absolutamente atordoados ao fim dos 31 minutos de filme. Este não é mais um filme documental sobre o Holocausto... Este É O filme sobre o Holocausto.

Edgardo Cozarinsky escreveu sobre esta obra: "o único filme justo sobre o grande horror do século XX: menos o extermínio de um povo do que o programa e administração postos em funcionamento para o executar. Também uma meditação sobre o esquecimento natural e o trabalho da memória”.

Imagens: Fotogramas de "Nuit et Brouillard"

sexta-feira, agosto 03, 2007

Senses of a Director - I

Este post é dedicado ao Lord of Erewhon com agradecimentos pois foi ele que me incitou à sua concretização. Associei os meus conhecimentos a uma exaustiva pesquisa e espero da vossa parte alguma correcção ou adição das informações aqui expressas.

Friedrich Wilhelm Murnau Plumpe nasceu a 28 de Dezembro de 1888 em Biefeld, Alemanha. F. W. Murnau (como ficou internacionalmente reconhecido) foi um dos principais cineastas do expressionismo alemão, movimento que conheceu o seu apogeu na década de 20. Os seus primeiros passos no mundo do cinema foi como assistente do realizador Max Reinhardt e em 1919 rodou o seu primeiro filme; "Der Knabe in Blau" (hoje em dia dado como desaparecido pois não se conhece nenhuma cópia). Em 1922 F. W. Murnau trabalhou intensamente e lançou para o mercado quatro filmes: "Marizza", "Der Brennende Acker", "Phantom" e "Nosferatu, Eine Symphonie des Grauens"; uma das suas obras mais famosas. A 11 de Março de 1931, Murnau faleceu num acidente rodoviário em Santa Barbara, Estados Unidos da América, pouco depois de terminar as gravações do filme "Tabu: A Story of the South Seas". Mais de 70 anos após a sua morte, o público da revista Entertainment Weekly elegeu-o como o 33º melhor realizador de todos os tempos.

"Nosferatu, Eine Symphonie des Grauens" (1922) é provavelmente o filme mais conhecido de F. W. Murnau. Originalmente plagiado da obra "Dracula" de Bram Stoker este é o primeiro filme de vampiros da história do cinema. A controvérsia do filme nasceu logo após a sua estreia pois a viúva de Bram Stoker, Florence Stoker, reclamou o plágio efectuado por Murnau à obra do seu marido. O tribunal foi implacável e ordenou a destruição total de todas as cópias de Nosferatu. Felizmente sobreviveram algumas que começaram timidamente a surgir após a morte de Florence Stoker em 1937. Várias são as versões encontradas (umas tingidas outras não; outras de duração de 60 minutos e outras de 90) e possivelmente nenhuma reflecte completamente a obra original de Murnau.

Aqui fica a filmografia completa de F. W. Murnau:
"Der Knabe in Blau" (1919); "Satanas" (1920); "Der Bucklige und die Tänzerin" (1920); "Der Januskopf" (1920); "Abend - Nacht - Morgen" (1920); "Der Gang in die Nacht" (1921); "Sehnsucht" (1921); "Schloß Vogeloed" (1921); "Marizza" (1922); "Der Brennende Acker" (1922); "Nosferatu, Eine Symphonie des Grauens" (1922; editado em Portugal pela editora Costa do Castelo com o título "Nosferatu, O Vampiro"); "Phantom" (1922); "Die Austreibung" (1923); "Die Finanzen des Großherzogs" (1924); "Der Letzte Mann (1924); "Herr Tartüff" (1926); "Faust" (1926); "Sunrise: A Song of Two Humans" (1927; editado em Portugal pela editora Costa do Castelo com o título "Aurora"); "4 Devils" (1928); "City Girl" (1930) e "Tabu: A Story of the South Seas" (1931).

sexta-feira, julho 06, 2007

"Belle de Jour" Reloaded

Que aconteceria se Séverina e Henri se cruzassem 38 anos depois?
Séverina continuaria a desejar Henri?
Henri continuaria a desejar possuir Séverina?
Em apenas 68 minutos, Manoel de Oliveira responde a todas estas perguntas em...


... "Belle Toujours".

(como sempre...)
Perfeito Sr. Oliveira!

domingo, maio 13, 2007

A Saga Dos Manos Ayoub, Amaneh, Madi, Kolsolum e Karim em DVD Nacional

Tradicional, rural, documental, estranho, poético, profundo, antiquado... Muitas são as características difundidas e associadas ao cinema iraniano. Não podemos esquecer porém, que neste pequeno canto do Oriente, a produção cinematográfica realiza-se a um ritmo muito próprio. Parco em quantidade reconhece-se o esforço do Irão no campo da qualidade.
Bahman Ghobadi (de onde destaco a sua participação como actor no extraordinário "O Quadro Negro" de Samira Makhmalbaf e actor e primeiro assistente de Abbas Kiarostami no inesquecível "E o Vento Levar-nos-á") escreveu, produziu e realizou este "Um Tempo Para Cavalos Bêbados", um dos meus filmes predilectos. Após assinar vários documentários sobre as deploráveis condições de vida no Curdistão, Ghobadi regista neste filme o drama da sobrevivência de cinco irmãos órfãos. Em estilo quase documental, falado em língua curda, financiado e protagonizado pela população local, este é um filme duro, implacável e impressionante.
Cinco anos após a sua estreia no nosso país, uma parceria entre a Atalanta Filmes e a Fnac, traz-nos a edição deste filme em DVD. A edição, inserida na colecção «Cinema do Mundo» é pobre e inserida no género «dois em um» (dois filmes no mesmo disco, bastante na moda nos dias que correm). Em compensação da falta de extras, podemos assistir ao filme "A História do Camelo que Chora", co-realizado pelo mongol Byambasuren Davaa e pelo italiano Luigi Falorni.

sexta-feira, dezembro 01, 2006

Já Que Se Fala Em Surrealismo...

Duração do clip: 42''

"Un Chien Andalou", uma curta-metragem de apenas 17 minutos, é considerada como a peça mais vanguardista da história do cinema. A ideia de Luis Buñuel e do mítico pintor Salvador Dalí foi de escandalizar o público e romper com as formalidades cinematográficas da época. A reacção dos cinéfilos não se fez esperar... Durante a sua exibição em França ocorreram vários tumultos em frente das salas que acolheram a cópia do filme. Se ainda hoje alguns classificam esta película como uma monstruosidade, muitos outros classificam-na como uma obra de arte. Penso que nem é necessário dizer a que grupo pertenço, certo?

Título: Un Chien Andalou
Ano: 1928 (França)
Argumento: Luis Buñuel e Salvador Dalí
Realização: Luis Buñuel

sábado, setembro 09, 2006

Die Macht der Bilder: Leni Riefenstahl

Fez ontem 3 anos que Leni Riefenstahl faleceu com a prestigiosa idade de 101 anos. Apesar de todas as acusações que lhe foram apontadas, ninguém poderá por em causa o seu profissionalismo. Leni começou a sua carreira como pintora e dançarina. Em 1925 participou (como dançarina) no filme "Wege zu Kraft und Schönheit - Ein Film Über Moderne Körperkultur" de Nicholas Kaufmann. Este filme fê-la ascender para o estrelato com uma rapidez meteórica.
Porém, Leni Riefenstahl será sempre recordada como realizadora. "Der Sieg des Glaubens", "Tag der Freiheit" ou "Triumph des Willens" são algumas das suas obras mais reconhecidas. Em 1938 foi incumbida de filmar os Jogos Olímpicos que esse ano decorreram em Berlim. Estas gravações transformaram-se na sua obra-prima. O "estar dentro da água com os atletas", o "correr ao lado dos atletas" e o "estar no campo com os atletas" transformaram-se em técnicas ainda hoje utilizadas por quase todos os realizadores.
Após a queda do nazismo mais ninguém esteve interessado em produzir obras desta excelente artista. Leni Riefenstahl dedicou-se então à fotografia. Até 1997 viajou diversas vezes para o Sudão onde fotografou a tribo Nuba no seu dia-a-dia. Estas obras foram muito bem recebidas pela crítica e mais uma vez Riefenstahl chegou ao estrelato. Com 71 anos aprendeu a mergulhar e começou a fotografar o mundo sub-aquático. Foi então que ela realizou o seu último filme: "Impressionen unter Wasser", um excelente documentário datado de 2002 onde nos podemos maravilhar com a vida sub-aquática.
"I filmed the truth as it was then. Nothing more" - Leni Riefenstahl no documentário "The Wonderful, Horrible Life of Leni Riefenstahl" (disponível por importação na Fnac).
Imagem: Montagem de fotos dos Jogos Olimpicos de Berlim (1938)

domingo, agosto 13, 2006

A Metamorfose de um "Scary Movie"

Na Sexta-Feira tive a visita de um dos meus afilhados. À noite, impossibilitados de permanecermos no jardim à beira Tejo devido aos insectos que este ano parece terem resolvido ampliar a família de forma descomunal, fomos até a um centro comercial. Numa das quatro salas de cinema existentes no dito centro comercial um filme chamou a atenção do meu afilhado e de alguns filhos de alguns amigos; "Pular a Cerca". Resolvemos então aceder aos pedidos das criancinhas e fomos todos assistir ao filme. Enquanto eu comprava uma garrafa de água e fumava um cigarro, eu quase não conseguia acreditar que estava disposto a ir assistir a um filme de animação. Confesso; vi e gostei de "Belleville Rendez-Vous", mas filmes como "Shrek" (verdadeiros "scary movies" que vão ao ponto de utilizarem a flatulência como humor), é sinónimo de bocejos constantes e de buscas desesperadas a tentar verificar as horas dentro da sala escura do cinema.
Após as "previews" de alguns filmes que estavam nas outras salas ou que vão estrear brevemente, o filme começou. "Boring!", pensei. Porém, eis que, uns 10 minutos depois, o filme começou a captar a minha atenção. Para encurtar a história: eu ri mais que todas as crianças no cinema (pois elas eram cerca de 50% dos espectadores presentes). A história lida nas entrelinhas é delirante! O que pensariam os animais selvagens (se eles raciocinassem, como é óbvio) se tivessem contacto connosco e contacto com a nossa existência. Eu até escolhi o meu personagem favorito: o esquilo Hammy (na figura). Aqui fica uma das suas frases mais repetidas:
Hammy: But I thought I liked the cookie...

quinta-feira, julho 20, 2006

Lights, Camera, Action! We're Ready For You Mr. Warhol

Minimalista, vanguardista, um génio do experimental... É assim que muitos vêm Andy Warhol, o artista plástico que impulsionou a pop-arte. Warhol não ficou apenas conhecido pelas suas pinturas. Na industria cinematográfica ele deixou a sua marca em mais de 70 filmes; ora como realizador, ora como produtor ou actor. Se filmes como "Mario Banana" (1964) ou "Eat" (1963) a duração é de 4 minutos e 45 minutos respectivamente, outras obras existem, com a duração de 6 horas e 30 minutos, tal como "Sleep" (1963) ou 1100 minutos, como "****" (1967).
Warhol teve a ideia de filmar "Sleep" quando se encontrava no hospital depois de ser alvejado por Valerie Solanas. Ele confessou a um amigo que desejava filmar Brigitte Bardot a dormir durante 8 horas. Porém, quando viu John Giorno a dormir, ele mudou de ideias. Ficámos sem saber se algum dia Brigitte Bardot aceitaria ser filmada durante o seu sono... A ideia de "Eat" surgiu quando Warhol viu Robert Indiana a comer. As directrizes ao "actor" foram simples de dar... Degustar um cogumelo durante o maior período de tempo possível. Et "voilá"! Aí temos 45 minutos de filme. Possuo estes dois filmes em meu poder, gravados por mim mesmo, em VHS, quando a sua transmissão no saudoso canal francês ARTE. Confesso porém que sou mais apreciador de Warhol como produtor do que como realizador. Numa das minhas (muitas) visitas à Fnac, encontrei uma trilogia que, tal como os filmes acima referidos, nunca pensei encontrar. Refiro-me a "Flesh" (1968), "Trash" (1970) e "Heat" (1972), realizados por Paul Morrissey e produzidos por Warhol. Estes três filmes contam com a presença de Joe Dallesandro (que se estreou em "****") e vários actores e actrizes-fetiche de quem rodeava Warhol (como por exemplo Candy Darling, Geraldine Smith ou Sylvia Miles). A edição desta trilogia, levada a cabo por uma editora italiana) está óptima (apesar de má qualidade de "Flesh" mas isso deve-se à má conservação do filme), com um disco extra cheio de documentários e entrevistas de época e actuais. Para quem gosta de Andy Warhol, uma pérola!
IMAGEM: Joe Dallesandro em "Flesh".

sexta-feira, maio 26, 2006

Jean-Luc Godard Apresenta...

Escrito e dirigido por Jean-Luc Godard, "Notre Musique" (2004) é um filme em três partes que contempla os três temas da "Divina Comédia" de Dante; Inferno, Purgatório e Paraíso. Trata-se de uma obra experimental e abstrata, onde Godard mistura a ficção com a realidade, e deseja destruir a relação imagem/texto.

Inferno: Imagens de guerra. Explosões, bombardeamentos, execuções, devastação, aldeias dizimadas. Imagens silenciosas, quatro frases, quatro peças musicais.

Purgatório: Sarajevo dos nossos dias. Personagens reais (Godard) e imaginárias (Olga). Uma visita à Ponte Mostrar (a travessia da culpa até ao perdão).

Paraíso: Olga encontra a paz à beira rio, numa pequena praia patrulhada por fuzileiros norte-americanos.

Olga Brodsky: "Se consegue compreender o que estou a dizer,
então você não está a prestar atenção."

Um filme a descobrir!

segunda-feira, abril 24, 2006

As Brincadeiras de Hitchcock

Era frequente Alfred Hitchcock fazer brincadeiras com o seu próprio físico, apesar de dizer sempre que era um "armário de gordura". As suas aparições nos seus próprios filmes ("cameos", falando em termos cinematográficos) são quase sempre sempre divertidas e, em muitas ocasiões, sublinham o ambiente angustiante do filme ou, pelo contrário, um contraponto humorístico. O que começou por ser uma brincadeira, passou a superstição e mais tarde a uma exigência do público. Toda a gente assistia aos seus filmes à sua procura. O problema é que poucos davam a atenção devida ao desenrolar da história. Hitchcock resolveu o problema: "Para permitir que que as pessoas vejam o final com tranquilidade, devo mostrar-me ostentivamente durante os primeiros cinco minutos do filme". A sua figura transformou-se numa marca comercial e desde o filme "O Hóspede" (1926) até ao seu derradeiro filme "Intriga em Família" (1976), o mestre fez "cameos" em todas as suas obras, excepto em "Pousada da Jamaica" (1939).
A sua aparição mais engenhosa foi em "Um Barco e Nove Destinos" (1943). Era muito complicado surgir diante da câmara quando toda a acção se desenrola num salva-vidas em pleno mar. Com o seu fino humor, confessou a Truffaut: "Devo dizer que passei longos e tensos momentos para resolver o problema. Habitualmente faço de transeunte, mas como inventar transeuntes no oceano? Tinha pensado em representar um cadáver flutuando longe do bote salva-vidas, mas tinha muito medo de me afogar. E era impossível representar um dos nove sobreviventes... Finalmente, tive uma ideia excelente. Naquela altura estava a seguir uma dieta muito rígida para perder 50 quilos, ou seja descer dos 150 para os 100. Assim, decidi imortalizar o meu emagrecimento, e conseguir o meu papelinho, posando para os fotógrafos 'antes' e 'depois'. Este papel foi um grande sucesso! É impressionante a ironia que representa este anúncio de um produto que faz emagrecer frente a um grupo de pessoas famintas e perdidas no mar".

IMAGEM: "cameo" de Alfred Hitchcock no filme "Um Barco e Nove Destinos".

segunda-feira, abril 17, 2006

O Plágio que se Converteu numa Obra-Prima

Quando resolveu produzir o filme "Nosferatu, Eine Symphonie des Grauens" (1922) a Prana-Films nunca pensou os problemas que se adivinhavam. Após a morte de Bram Stoker, a sua esposa, Florence Stoker, encontrava-se numa péssima situação financeira e logo após a estreia deste filme, ela levou a Prana-Films a tribunal alegando plágio à obra "Drácula" da autoria do seu marido. Porém, F.W. Murnau (o realizador) tinha gasto muito dinheiro do seu próprio bolso em publicidade e recusou-se a pagar os direitos de autor, e a Prana-Films entrou em bancarrota. Pouco tempo depois todo o material (e as dividas) da Prana-Films passaram para a produtora Deutsch-Amerikansch Film Union que também se recusou a pagar a Florence Stoker a indemnização que ela exigia. Mais uma vez F.W. Murnau foi chamado a tribunal e mais uma vez, devido à pecária situação financeira em que também se encontrava, ele negou-se a gastar mais dinheiro com a sua obra. Florence Stoker foi então drástica: exigiu a destruição de todas as cópias de "Nosferatu". Em Julho de 1925 o tribunal deu a conhecer a sua sentença e todas as cópias conhecidas começaram a ser queimadas. Durante 10 anos, Florence Stoker enveredou por uma autêntica epopeia de processos e recursos, obsecada com a destruição total de "Nosferatu". Em 1937 a viúva de Stoker faleceu com a certeza de dever cumprido e durante alguns anos se pensou que este filme encontrava-se irremediavelmente perdido. Começaram então a surgir diversas cópias mas em péssimo estado de conservação. Foi encontrado também o filme "The Twelfth Four" (datado de 1930), uma versão sonora de "Nosferatu" mantida em segredo durante o processo judicial. Existem, porém, alguns problemas: algumas destas cópias duram 60 minutos e algumas 90... Existem cópias tingidas e outras não... Existem diferenças na montagem destas cópias... Apenas num ponto os estudiosos estão de acordo: na versão de F.W. Murnau a película era tingida (de sépia nas cenas diurnas e de azul nas nocturnas), pois não faz sentido ver Orlok caminhando em plena luz do dia para, no fim, ser morto devido aos raios solares. Em relação aos outros problemas existentes, ninguém sabe qual é a versão que mais se aproxima à original. Talvez com o tempo mais cópias sejam encontradas e nós possamos visualizar este grande clássico tal como o seu realizador o idealizou. Por enquanto, desfrutemos de "Nosferatu" tal como foi encontrado, restaurado e montado.

segunda-feira, abril 10, 2006

A Trilogia Incompleta: Heaven

Após a realização da fantástica trilogia dedicada às três cores da bandeira francesa "Trois Couleurs"; ("Bleu" [1993]; "Blanc" [1994] e "Rouge" [1994]), o realizador polaco Krzysztof Kieslowski sucumbiu em 1996. Em 2002 o realizador alemão Tom Tykwer (que em 1998 assinou o extraordinário "Lola Rennt") pegou num argumento deixado pelo seu colega polaco e realizou "Heaven". É perceptível que Tykwer teve um cuidado extremo ao realizar este filme, afinal, o argumento era de um grande senhor do cinema. A realização faz-nos recordar as obras de Kieslowski (longos planos com câmara estática), os actores foram escolhidos "a dedo" (onde realço a fantástica interpretação de Cate Blanchett) e o próprio Tykwer compôs a música original (auxiliada com a música não original de Arvo Pärt). Uma pequena curiosidade: "Heaven" (que em Portugal recebeu o título de "Heaven - Por Amor") seria o primeiro filme de mais uma trilogia de Krzysztof Kieslowski: "Heaven", "Hell" e "Purgatory".

domingo, novembro 13, 2005

Conta Comigo


Stand by Me ("Conta Comigo", em português) foi o filme que mais me impressionou até hoje. Esta pequena película (que vi na TV por mero acaso) transporta qualquer pessoa para o fim da sua infância. Apesar da história se desenrolar nos anos 60, ela faz recordar os nossos antigos amigos, as conversas e as peculiares situações que vivemos, independentemente da nossa idade. Posso ser suspeito ao escrever tudo isto... O filme é baseado numa pequena história de um dos meus escritores favoritos (Stephen King) e tem o fantástico desempenho de um actor que, para mim, foi uma autêntica estrela: River Phoenix (à esquerda na foto). Vejam o filme e depois digam qualquer coisa. Penso que estas duas situações não interferem para eu considerar este filme como "o filme da minha vida" (e eu que nem sou fã dos filmes norte-americanos). O fim é deslumbrante apesar do mau augúrio do trágico desaparecimento de River Phoenix. Mas se o corpo é a prisão da alma, onde quer que ele esteja, estará certamente a brilhar com a sua conduta de vida exemplar.