sexta-feira, fevereiro 17, 2012

Memórias

"Havia também os que se apresentavam sozinhos, braços de fome, a oferecerem a nádega à seringa a troco de uma cama onde dormir, clientes habituais que o porteiro reenviava, de imperioso braço estendido à estátua de Marechal Saldanha, para as árvores do Campo de Santana que o escuro confundia numa névoa de corpos abraçados. Aqui, pensou o médico, desagua a última miséria, a solidão absoluta, o que nós próprios não aguentamos suportar, os mais escondidos e vergonhosos dos nossos sentimentos, o que nos outros chamamos de loucura que é afinal a nossa e da qual nos protegemos a etiquetá-la, a comprimi-la de grades, a alimentá-la de pastilhas e de gotas para que continue existindo, a conceder-lhe licença de saída ao fim de semana e a encaminhá-la na direção de uma «normalidade» que provavelmente consiste apenas no empalhar em vida."

Texto: Excerto de "Memórias de Elefante" de António Lobo Antunes
Imagem: Fotograma de "Requiem for a Dream" de Darren Aronofsky

segunda-feira, agosto 15, 2011

1001 Fimes Para Ver Antes De Morrer (II)

FILME #2

THE GREAT TRAIN ROBBERY
Realização: Edwin S. Porter
Intérpretes: A. C. Abbadie, Gilbert M. "Broncho Billy" Anderson, George Barnes, Walter Cameron, Justus D. Barnes
Produção: Edison Manufacturing Company
Origem: EUA, 1903



(faltam 999 filmes)

quarta-feira, abril 27, 2011

Óleo Sobre Tela (XXXIII)

Edvard Munch - "Primavera" (1889)


"Pintei os traços e as cores que afectaram o meu olhar interior. Pintei de memória sem nada acrescentar, sem os pormenores que já não via à minha frente. É esta a razão da simplicidade das minhas telas, do seu óbvio vazio. Pintei as impressões da minha infância, as cores esbatidas de um dia esquecido".

domingo, abril 24, 2011

1001 Filmes Para Ver Antes De Morrer (I)

FILME #1:

LE VOYAGE DANS LA LUNE

Realização: Georges Méliès
Intérpretes: Victor André, Bleuette Bernon, Brunnet, Jeanne d'Alcy, Henri Dellanoy
Produção: Star Film
Origem: França, 1902




(faltam apenas mais 1000 filmes)

segunda-feira, abril 11, 2011

The Criterion Collection (#148)











Título: Ballada O Soldate (A Balada do Soldado)
Realização: Grigory Chukhrai
Intérpretes: Vladimir Ivashov, Zhanna Prokhorenko, Antonina Maximova, Nikolai Kriunchkov, Vevgeny Urbansky.
Origem: URSS, 1959
Coleção Criterion #148

quinta-feira, março 24, 2011

A Knee Play


The day with its cares and perplexities is ended and the night is now upon us.
The night should be a time of peace and tranquility, a time to relax and be calm.
We have need of a soothing story to banish the disturbing thoughts of the day,
to set at rest our troubled minds, and put at ease our ruffled spirits.

And what sort of story shall we hear ?
Ah, it will be a familiar story, a story that is so very, very old,
and yet it is so new. It is the old, old story of love.

Two lovers sat on a park bench with their bodies
touching each other, holding hands in the moonlight.

There was silence between them.
So profound was their love for each other,
they needed no words to express it.
And so they sat in silence, on a park bench,
with their bodies touching,
holding hands in the moonlight.


Finally she spoke.
"Do you love me, John ?" she asked.
"You know I love you, darling." he replied.
"I love you more than tongue can tell.
You are the light of my life.
My sun. Moon and stars.
You are my everything.
Without you I have no reason for being."

Again there was silence as the two lovers sat on a park bench,
their bodies touching, holding hands in the moonlight.
Once more she spoke. "How much do you love me, John ?" she asked.
He answered : "How much do I love you ? Count the stars in the sky.
Measure the waters of the oceans with a teaspoon.
Number the grains of sand on the sea shore. Impossible, you say."

"Yes and it is just as impossible for me to say how much I love you."

"My love for you is higher than the heavens, deeper than Hades,
and broader than the earth. It has no limits, no bounds.
Everything must have an ending except my love for you."

There was more of silence as the two lovers sat
on a park bench with their bodies touching, holding hands in the moonlight.

Once more her voice was heard.
"Kiss me, John" she implored.
And leaning over, he pressed his lips
warmly to hers in fervent osculation...

Letra: "Knee Play 5" de "Einstein on the Beach" de Philip Glass e Robert Wilson
Música: Philip Glass

sábado, março 12, 2011

Foto À Minura - VIII

"Billy Mann" de Larry Clark
(1963)

sexta-feira, janeiro 07, 2011

Óleo Sobre Tela (XXXIV)

"Não tenho medo de fazer alterações,
destruir a imagem, etc.,
porque a pintura tem vida própria". - Jackson Pollock

Imagem: "Painting One: Nr. 31 (Lavender Mist)" de Jackson Pollock

sexta-feira, dezembro 17, 2010

Under The Sea Of Fog


"Vejo que as tempestades vêm aí
pelas árvores que, à medida que os dias se tomam mornos,
batem nas minhas janelas assustadas
e ouço as distâncias dizerem coisas
que não sei suportar sem um amigo,
que não posso amar sem uma irmã.

E a tempestade rodopia, e transforma tudo,
atravessa a floresta e o tempo
e tudo parece sem idade:
a paisagem, como um verso do saltério,
é pujança, ardor, eternidade.

Que pequeno é aquilo contra que lutamos,
como é imenso, o que contra nós luta;
se nos deixássemos, como fazem as coisas,
assaltar assim pela grande tempestade, —
chegaríamos longe e seríamos anónimos.

Triunfamos sobre o que é Pequeno
e o próprio êxito torna-nos pequenos.
Nem o Eterno nem o Extraordinário
serão derrotados por nós.
Este é o anjo que aparecia
aos lutadores do Antigo Testamento:
quando os nervos dos seus adversários
na luta ficavam tensos e como metal,
sentia-os ele debaixo dos seus dedos
como cordas tocando profundas melodias.

Aquele que venceu este anjo
que tantas vezes renunciou à luta.
esse caminha erecto, justificado,
e sai grande daquela dura mão
que, como se o esculpisse, se estreitou à sua volta.
Os triunfos já não o tentam.
O seu crescimento é: ser o profundamente vencido
por algo cada vez maior."


Poema: "O Homem que Contempla" de Maria Rilke
Pintura: Wanderer Above the Sea of Fog de Caspar David Friedrich

terça-feira, outubro 05, 2010

Óleo Sobre Tela - XXXIII

Christian Krogh - "A Rapariga Doente" (1880/81)

"A arte está acabada, uma vez que o artista tenha dito verdadeiramente tudo o que lhe estava no seu coração..."

domingo, setembro 26, 2010

Inside The Dream

"Inside The Dream Syndicate Volume 1: Day of Niagara" é uma peça musical rara. No dia 25 de Abril de 1965 (época em que o minimalismo gozava de grande prestígio), cinco compositores e músicos reuniram-se e gravaram esta composição de 30 minutos, com John Cale na viola, Tony Conrad no violino, Angus MacLise na percussão, La Monte Young no saxofone e Marian Zazeela na voz. Porém, esta peça é rara pois, desde a sua gravação, que os compositores encontram-se em disputa em relação aos direitos de autor.
La Monte Young não autoriza a gravação a não ser que ele seja creditado como o único compositor de "Inside the Dream Syndicate Volume 1: Day of Niagara". Marian Zaseela (sua esposa) encontra-se do seu lado. Já John Cale e Tony Conrad afirmam que a obra foi um trabalho de equipa. Angus MacLise já faleceu e por isso não pode tecer comentários.
No ano 2000 a gravação chegou ao público através de um disco com uma versão remasterizada. Porém, teve uma tiragem muito limitada e depressa desapareceu das prateleiras das lojas de especialidade. Agora (se forem amantes do minimalismo como eu), aguardemos por uma nova reedição...

domingo, agosto 22, 2010

Memórias De Um Sonhador

"E outra vez me pergunto: o que fizeste com esses anos? Onde sepultaste os teus melhores anos? Viveste ou não viveste? Olha, digo para mim, olha que frio se põe no mundo. Mais anos passarão e atrás deles virá a solidão sombria, virá com o seu cajado, a velhice tremente, e com isso a mágoa e a amargura. Tornar-se-á pálido o teu mundo fantástico, vão esmorecer os teus sonhos, murchar, cair como folhas amarelas das árvores... Que triste ficar sozinho, completamente sozinho, sem ter sequer o que lamentar - nada, absolutamente nada... porque todo o perdido era nada, um zero estúpido, nada mais que uma ilusão!"

Texto: Excerto de "Noites Brancas" de Fiódor Dostoiévski
Imagem: Fotograma de "Le Notti Bianche" de Luchino Visconti

domingo, agosto 15, 2010

Óleo Sobre Tela (XXXII)

Albert Marquet - Praia em Fécamp (1906)
.
Uma obra fauvista para a comemoração do verão...

segunda-feira, julho 26, 2010

A Obra "Guernica"... Como Nunca A Viu

A tela (782 X 351 cms), a preto e branco, representa o bombardeamento sofrido pela cidade espanhola de Guernica a 26 de Abril de 1937 por aviões alemães e está actualmente exposta no Centro Nacional de Arte Rainha Sofia, em Madrid.
O pintor, que morava em Paris na altura, soube do massacre pelos jornais e pintou as pessoas, animais e edifícios destruídos pela força aérea nazi tal como os viu na sua imaginação.
Agora, uma artista nova-iorquina, Lena Gieseke, que domina as mais modernas técnicas de infografia digital, decidiu propor uma versão 3D da célebre obra e colocá-la na internet sob a forma de um vídeo.
O resultado é fascinante e permite-nos visualizar detalhes que de outra forma nos passariam despercebidos. Esta técnica inovadora revela-se um instrumento poderoso para compreender melhor a forma de trabalhar do pintor e até o modo como funcionava a sua imaginação.
Em conclusão: podemos ver a obra "Guernica" como nunca antes a vimos.

sábado, junho 26, 2010

domingo, junho 20, 2010

Argumento Adaptado: Carrie

"Devia ter-me matado quando ele a pôs em mim - disse, claramente. - Depois da primeira vez, antes de casarmos, jurou: nunca mais. Disse que fora apenas... um descuido. Acreditei. Caí, perdi o bebé e esse foi o juízo de Deus. Pensei que o pecado tinha sido expiado. Pelo sangue. Mas o pecado nunca morre. O pecado... nunca... morre. - Os seus olhos cintilavam. - Ao príncipio correu tudo bem. Vivemos sem pecado. Dormíamos na mesma cama, às vezes ventre com ventre, e, oh, eu sentia a presença da Serpente, mas... nunca... o fizémos... até... - Começou a sorrir cruelmente, terrivelmente. - E nessa noite vi-o a olhar-me daquele modo. Ajoelhámos a pedir forças e ele tocou-me... Naquele sítio. Naquele sítio da mulher. Mandei-o sair de casa. Esteve horas fora e eu rezei por ele. Vi-o mentalmente, a percorrer as ruas da meia-noite e a lutar com o Demónio como Jacob lutou com o Anjo do Senhor. E quando regressou o meu coração encheu-se de gratidão. Só quando ele entrou é que cheirei o uísque no seu hálito. E tomou-me. Tomou-me. Tomou-me ainda com o fedor do uísque da imunda estalagem no hálito, tomou-me... e eu gostei! - Gritou as últimas palavras, como se as atirasse ao tecto. - Gostei de toda aquela fornicação e das suas mãos nojentas em mim, EM TODA EU!"



O livro: "Carrie" de Stephen King
O filme: "Carrie" de Brian de Palma

sexta-feira, junho 18, 2010

Adeus, José Saramago

José Saramago
(1922 - 2010)

sexta-feira, maio 28, 2010

Óleo Sobre Tela (XXXI)

Marcel Duchamp - Nu Descendo as Escadas
(1912)

sexta-feira, maio 07, 2010

In Modeling...

"Hanging Children" de Maurizio Cattelan
(2004)

Uma representação realística de três crianças enforcadas na árvore mais antiga da cidade, com os seus olhos bem abertos... observando a realidade.

quinta-feira, abril 01, 2010

Páginas Soltas

"Janeiro de 1995, quinta-feira. Em roupão e de cigarro apagado nos dedos, sentei-me à mesa do pequeno-almoço onde já estava a minha mulher com a Sylvie e o António que tinham chegado na véspera a Portugal. Acho que dei os bons-dias e que, embora calmo, trazia uma palidez de cera. Foi numa manhã cinzenta que nunca mais esquecerei, as pessoas a falarem não sei de quê e eu a correr a sala com o olhar, o chão, as paredes, o enorme plátano por trás da varanda. Parei na chávena de chá e fiquei. «Sinto-me mal, nunca me senti assim», murmurei numa fria tranquilidade.
Silêncio brusco. Eu e a chávena debaixo dos meus olhos. De repente viro-me para a minha mulher: «Como é que tu te chamas?»
Pausa. «Eu? Edite.» Nova pausa. «E tu?»
«Parece que é Cardoso Pires», respondi então."

Texto: Excerto de "De Profundis, Valsa Lenta" de José Cardoso Pires
Imagem: "Auto-retrato" de Egon Schiele